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Indústria da superação: a gente é obrigado a ser forte?

Ivan Martins

28/01/2020 23h00

Superação tem limite, né? (Istock)

 

De zero a dez, o que me incomoda em nível nove é a ideia cada vez mais disseminada de que qualquer um pode ser e ter tudo o que desejar, bastando se empenhar o suficiente. Com força de vontade se consegue qualquer coisa, inclusive escalar a montanha mais alta do mundo, certo? Errado.

Se algo fica claro desde que somos bebês é que nem tudo é possível, que nem sempre vai ser do jeito que a gente deseja – e nós que tratemos de viver com isso, da melhor maneira possível. A vida é imperfeita e frequentemente insatisfatória.

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Quando o nosso relacionamento será perfeito? Talvez quando estivermos mortos. Ou quando ele estiver encerrado e pensarmos nele com nostalgia. Enquanto vivo, o relacionamento será difícil e incompleto, como tudo mais ao nosso redor. O amor perfeito não existe. O que tem para hoje é essa massa de emoções contraditórias, a vida em seu esplendor mambembe e frágil.

Quando era menino, eu queria jogar bola como os melhores da rua e da escola. Nunca consegui. Na adolescência, tentei ser valente como uns caras e bem-sucedido com as meninas como outros. Também não deu. Jovem, descobri na faculdade e no trabalho que alguns caras eram mais inteligentes e outros mais talentosos do que eu, e tive de aceitar a realidade.

Sobrevivi, como todos.

Hoje, se tivesse de apontar a atitude mais importante diante da vida, jamais diria perseverança, obstinação, força de vontade, perfeição, essas coisas que a indústria da superação quer nos empurrar todos os dias, como se a vida fosse uma pista de corrida ou uma quadra de basquete.

Dedicação é importante, evidentemente, mas sinto que o essencial no mundo hipercompetitivo de 2020, em que se fala obsessivamente de desempenho, é a capacidade de lidar com as frustrações, de adaptar nossos sentimentos e talentos à realidade, de amar aquilo que nos vem com naturalidade. Precisamos de alguma resignação, não só de obstinação e esperança.

Entendem?

Conhecer nossos próprios desejos é importante, mas entender que eles podem não se realizar também o é, talvez na mesma proporção.

Num mundo horrivelmente consumista, no qual somos convidados a desejar tudo, o tempo todo, sem limites e sem pudores, um mundo em que somos estimulados a trabalhar sem folga e sem direitos para obter bens e prestígio, é urgente aprender a respeitar os limites: do nosso corpo, do nosso temperamento, dos sentimentos dos outros, da vida como ela é ou como poderia ser.

A indústria da superação quer nos convencer de que diante da nossa vontade nada é impossível, mas isso é mentira. O mundo é pródigo em "nãos": não dá, não pode, não tem, não quero, não gosto, não faço, não vem, enfim.

Estou sugerindo que deveríamos estar subjetivamente preparados para lidar com a impossibilidade e a imperfeição, em vez de perseguir cegamente o sucesso, seja lá o que isso significa: queria e tentei, mas não deu certo. E agora? Respira, o mundo não vai acabar.

Ao contrário do que insistem em nos dizer, não somos onipotentes. Temos limites. Nem tudo está ao nosso alcance, nem tudo é possível. Admitir emocionalmente a inviabilidade ou a incapacidade pessoal é uma forma de resistir ao mantra robótico da competição incessante e do ressentimento inevitável, é uma forma de cogitar um mundo emocionalmente melhor não apenas para mim, mas para todos os que nasceram no bairro errado e nem tiveram chance de competir.

Que tal recusar o reino da inveja que nos fazem habitar? Inveja da mulher do outro, do carro do outro, da aparência do outro, da idade do outro. Que tal dar atenção àquelas partes de nós que não encontram eco no mercado, na vida corporativa e no empreendedorismo como forma de ser, esse empreendedorismo que almeja dominar todos os aspectos da nossa subjetividade, que quer nos transformar em pessoas jurídicas, uma legião global e insípida de NÓS S/A?

Prefiro pensar que não somos apenas potenciais vencedores. Somos gente, e gente sofre derrotas, humilhações, injustiças. A indústria do triunfo e da superação quer nos simplificar, nos transformar num produto sem alma mas de grande eficácia. Somos mais que isso, porém. Somos filhos, pais, mães, maridos, amantes e amigos, criaturas complicadas e vulneráveis. Com força de vontade, amor e ajuda conseguiremos muita coisa. Outras não. Talvez faça bem nos reconciliarmos com essa ideia e buscarmos formas de realização menos cruéis com a gente mesmo.

Sobre o Autor

Ivan Martins é psicanalista, jornalista e autor dos livros “Alguém especial” e “Um amor depois do outro”. Irmão mais novo numa família de mulheres, aprendeu muito cedo a fazer xixi erguendo a tampa da privada, e acha que isso lhe fez bem. Escreve sobre relacionamentos desde 2009, tentando entender o que faz do apaixonamento algo tão central à vida humana.

Sobre o Blog

Esta coluna pretende ser um espaço para discutir os sentimentos, as ideias e as circunstâncias que moldam a vida dos casais – e dos aspirantes a casal - no Brasil do século XXI. Bem-vindas e bem-vindos!

Ivan Martins