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Nem tudo se resolve conversando

Ivan Martins

22/01/2020 00h01

E quando a conversa não resolve nada? (iStock)

Muita gente acredita que tudo se resolve conversando, dentro e fora dos relacionamentos. Eu discordo. Há situações que as palavras não resolvem. Aquilo que alguém fez ou disse, um sentimento que provocou, pode ser irreversível.

A ideia de que tudo pode ser conversado, perdoado ou entendido parte da ilusão de que somos criaturas racionais, gente que toma decisões lógicas e age de acordo com elas. Mas não somos bem assim. Somos bichos afetivos, emocionais, cujo interior passional é recoberto por uma tinta de sensatez. Por baixo da argumentação coerente ferve a lava dos sentimentos.

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As palavras são o melhor – e às vezes o único –instrumento que temos para comunicar e alterar as nossas emoções. As palavras precisam ser usadas no interior dos relacionamentos, mas muitas vezes elas são insuficientes. As famosas DRs, as discussões de relação, não resolvem todos os conflitos.

Quando alguém faz algo que nos magoa demais, não adianta ficar falando a respeito. A gente pode ser capaz de perdoar ou não. Horas de conversa não mudam os sentimentos e nem os fatos. Às vezes, você até gostaria de deixar de lado, mas não consegue. Calou fundo. Mudou coisas por dentro. Não tem volta. Pode-se começar de novo, mas não do mesmo lugar.

Quem nunca viveu uma situação assim?

As pessoas bem-sucedidas nos relacionamentos são naturalmente cuidadosas. Elas sabem que as palavras não consertam tudo e agem de forma a não ferir ou atropelar os parceiros. Elas prestam atenção no outro, o que não é fácil. A maioria de nós tem olhos só para si mesmo, para seus próprios problemas e sensibilidades. Quem consegue sair de si e olhar atenciosamente para o parceiro ou a parceira tem menos chance de cometer erros imperdoáveis ou – o que é mais frequente – se comportar seguidamente de maneira que entristece ou afasta quem está do lado. O desgaste repetido causa a maior parte das separações.

Muitos não percebem o limite das palavras. Acreditam, secretamente, que todas as diferenças, todos os desapontamentos e desencontros podem ser aparados e resolvidos. Além de serem ingenuamente onipotentes, eles se fiam nos aspectos racionais da relação, ignorando as emoções – conscientes e inconscientes – que influenciam nosso convívio. Palavras criam pontes, mas elas não cruzam todos os abismos.

Não estou falando apenas das consequências de enganar e trair a confiança do parceiro. Isso é um clássico do não retorno, mas não é a única razão para tornar as coisas inviáveis. Os parceiros nos desapontam de formas menos dramáticas, mas igualmente corrosivas: por não fazer o que esperávamos deles, por lhes faltar sensibilidade para os nossos sentimentos, por serem voltados a si mesmos, egoístas. Temos de falar sobre isso, claro, mas adianta? Nem sempre.

Entre os homens, é comum um certo jeito adolescente, egoísta, que faz com que procurem satisfação imediata de seus desejos, indiferentes aos sentimentos dos outros. É uma coisa presente em caras de todas as idades. Se as parceiras falarem com eles sobre isso, poderão ouvir explicações ou negativas ("Não, eu não sou assim. Nada a ver."), mas, dificilmente, verão mudanças notáveis de comportamento. O buraco do egoísmo infantil é mais embaixo. Alguns casos se resolvem com a passagem do tempo e o advento da tal maturidade. Outros, só com terapia, ou nem assim.

Acontece o mesmo com gente ciumenta. Você pode passar a vida conversando com elas sem conseguir mudar esse sentimento. Com uma boa educação e um sólido conjunto de valores, a pessoa aprende que não pode agredir ou esculhambar quem lhe causa ciúme. Ela aprende a conter suas reações. Mas a suspeita e a raiva continuam lá, assombrando e atrapalhando o convívio. Cada vez que houver motivo (real ou imaginário) de ciúme, haverá crise.

Em casos como esses, talvez seja mais útil observar do que conversar. A pessoa se revela quando age, não quando fala. Prestando atenção ao comportamento do parceiro – ou da parceira – a gente vai percebendo o que se repete, aquilo que vem à tona espontaneamente, de forma recorrente, e que tem pouco a ver com o que a pessoa diz ou pensa sobre si mesma. É desse material que se repete que a pessoa é feita, não de palavras bonitas.

Quer dizer, então, que falar é inútil? Não, não é, mas é bom ter claro que há limites para o que as conversas de casal podem produzir. Elas tocam a compreensão, mas não alteram as marcas profundas, os traços arraigados, o caráter. Para isso é necessária ajuda externa, e nem sempre funciona. Às vezes será preciso aceitar o outro como ele é, ou simplesmente sair andando. Nem tudo pode ser mudado.

Há um certo pessimismo nessa constatação, evidentemente. Aceitar que as palavras não são mágicas significa que alguns impasses emocionais nos relacionamentos podem ser insolúveis. Implica, também, entender que certas coisas, uma vez que tenham sido feitas ou ditas, podem ser definitivas e irremediáveis. Quando a gente enxerga isso, percebe a necessidade de prestar atenção ao outro, de tratar os parceiros com cuidado e os nossos relacionamentos como coisas frágeis. Não dá para sair de todas as crises conversando. O melhor que podemos fazer é evitá-las.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Ivan Martins é psicanalista, jornalista e autor dos livros “Alguém especial” e “Um amor depois do outro”. Irmão mais novo numa família de mulheres, aprendeu muito cedo a fazer xixi erguendo a tampa da privada, e acha que isso lhe fez bem. Escreve sobre relacionamentos desde 2009, tentando entender o que faz do apaixonamento algo tão central à vida humana.

Sobre o Blog

Esta coluna pretende ser um espaço para discutir os sentimentos, as ideias e as circunstâncias que moldam a vida dos casais – e dos aspirantes a casal - no Brasil do século XXI. Bem-vindas e bem-vindos!

Ivan Martins