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Não venha, meteoro! Faremos melhor em 2020

Ivan Martins

01/01/2020 00h01

 

No dia em que eu vi a foto do cara com braçadeira de suástica, sentado calmamente num bar de Belo Horizonte, tive vontade de que viesse o meteoro.

Como pode?

Foi o mesmo dia, uma segunda-feira, em que o presidente do Brasil se referiu como "energúmeno" a Paulo Freire, o mais influente educador que o país produziu, o brasileiro mais citado em estudos internacionais, um grande homem, dulcíssimo, humanista, marxista e católico, um sábio venerável.

Como pode?

Nesse dia, juro, deu vontade que o meteoro chegasse rapidinho, para pôr fim a essa degradação moral e ideológica que, infelizmente, não se restringe ao Brasil.

Mas isso tudo me ocorreu num dia de grande desânimo e apreensão, uma droga de segunda-feira. Depois, com o avançar da semana, fui me dando conta –como sempre– de que os ressentidos cheios de ódio, embora sejam muitos e cada vez mais influentes, não são maioria. Nós somos.

Aqueles que sonham com um mundo melhor, que desejam combater a pobreza e a discriminação, aqueles que querem viver numa sociedade fraterna, sem racismo, sem machismo e sem preconceito, com ampla liberdade e diversidade, que acreditam em ciência, cultura e civilização, estes ainda são maioria neste planeta ameaçado.

Prevaleceremos a curto prazo? Não sei. Mas é certo que, na história moderna, os regimes truculentos (com raras exceções) têm tido vida curta.

A luz está sempre acesa no fim do túnel, basta que a gente erga a cabeça e espie.

Agora mesmo, na virada do ano, consigo encontrar motivos para ter esperança, apesar do lixo exasperante que circula nas redes sociais. Se a gente se distanciar desse universo paralelo –do submundo digital da extrema direita, com suas agressões permanentes e suas mentiras–, perceberá que, na vida real, as pessoas são menos virulentas.

Claro, existem trogloditas homofóbicos que atacam gays nas ruas de nossa cidade e machos covardes que espancam "suas" mulheres, assim como há gente que celebra o assassinato de líderes indígenas no Maranhão e faz ironias com a morte de crianças baleadas nas favelas, mas essas pessoas estão fora da curva de normalidade moral do país.

A maioria dos homens e mulheres do Brasil é cordata, empática, generosa. Os monstros vociferantes se concentram no esgoto da internet. Não há por que nos deixar intoxicar por eles ou entrar em disputas verbais com robôs, ainda que de carne e osso. Melhor poupar energia para os embates reais.

No mundo de verdade, as coisas estão difíceis, bem difíceis, mas não são impossíveis. Existe vida cultural, ativismo social, organização política. Alegria coletiva. Carnaval. Nas nossas cidades, em toda parte, as pessoas se reúnem para discutir ideias, pensar alternativas, elaborar planos de mudança e transformação. Escreve-se muito, lê-se muito, debate-se intensamente. Cria-se e publica-se em abundância. Há um número crescente de encontros e reuniões, como é mister em momentos de crise.

Mesmo no Congresso, que nos acostumamos com toda razão a desdenhar, se nota um esforço de resistência contra algumas propostas especialmente ignóbeis do governo. O tal "excludente de ilicitude", proposto por Jair Bolsonaro e Sergio Moro, que dava à polícia o poder de matar (ainda mais) sem explicações, foi derrubado pelos parlamentares. O filho sem qualidades do presidente tampouco conseguiu virar embaixador, porque houve resistência a esse desmando nepotista no Senado. São pequenas vitórias, mas elas demonstram que há vida na superfície lunar da política oficial do Brasil.

O alarido da extrema direita e suas bizarrices ocupam espaço desproporcional na mídia (afinal, eles estão no poder), mas a sensação de controle e exclusividade que projetam é enganosa. A vida real é rica em manifestações que não são captadas ou transmitidas pelas antenas de televisão. O cotidiano dos homens e mulheres normais produz iniciativas que não cabem no formato mental dos ideólogos de Twitter. Elas formam milhões de pequenas avalanches que, juntas, movem as montanhas.

Isso é o que eu penso: que a resistência ao Grande Retrocesso começou, e ela está acontecendo em toda parte, em qualquer lugar onde as pessoas se reúnam para pensar e conversar livremente, sem tutela e sem pastoreio.

Estivemos alienados por muitos anos, desmobilizados, despolitizados, delegando a satisfação de nossos desejos a homens e mulheres públicos de nossa confiança. Mas eles se deslumbraram, se enganaram e, muitas vezes, nos traíram em nome de seus interesses mesquinhos.

Nos cabe, portanto, arregaçar as mangas e resistir de forma calma e determinada ao atual projeto de destruição biológica e espiritual do Brasil.

Faremos isso enquanto nos ocupamos da confusão pungente da nossa vida privada, que não cessa de nos oferecer motivos para estar feliz no mundo. Mesmo em tempos sombrios, o amor acontece e gera frutos demasiadamente comoventes. Os desencontros também se multiplicam, abrindo a possibilidade de novos recomeços.  Precisamos ainda mais de amor quando cai o crepúsculo. Necessitamos de amizade, de carinho e de compreensão em tempos difíceis.

Teremos isso tudo nos dias vindouros? Eu acredito que sim. Espero que sim.

Em 2020, o grande meteoro redentor passará ao largo do nosso planeta ameaçado. Nós, sete bilhões de humanos singulares, não estamos prontos para entregar os pontos. Faremos melhor no ano que vem!

Sobre o Autor

Ivan Martins é psicanalista, jornalista e autor dos livros “Alguém especial” e “Um amor depois do outro”. Irmão mais novo numa família de mulheres, aprendeu muito cedo a fazer xixi erguendo a tampa da privada, e acha que isso lhe fez bem. Escreve sobre relacionamentos desde 2009, tentando entender o que faz do apaixonamento algo tão central à vida humana.

Sobre o Blog

Esta coluna pretende ser um espaço para discutir os sentimentos, as ideias e as circunstâncias que moldam a vida dos casais – e dos aspirantes a casal - no Brasil do século XXI. Bem-vindas e bem-vindos!

Ivan Martins