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Amor de morte: você perdoaria quem lhe deu cinco tiros?

Ivan Martins

04/02/2020 23h00

Qual o limite do seu perdão? (iStock)

A notícia na internet soava inacreditável: mulher beija no tribunal o homem que lhe deu cinco tiros. Aconteceu durante um julgamento na cidade de Venâncio Aires, no interior do Rio Grande do Sul. Diante do olhar incrédulo dos jurados, a vítima pediu licença ao juiz, foi até o réu e deu-lhe um beijo apaixonado. Registrada pelas câmeras, a cena e a história insólita correram mundo.

Como pode?

Em entrevista ao jornal Gazeta do Sul, Micheli Schlosser, de 25 anos, explicou que Lisandro Rafael Posselt, 28, seu namorado, não tivera culpa dos tiros que disparou contra ela em agosto do ano passado – todos pelas costas, todos certeiros. As cinco balas continuam no corpo de Micheli.

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"Brigamos por causa de conversas que eu peguei no celular dele. Eu provoquei muito ele naquele dia. Ameacei que iria denunciá-lo à polícia por estupro. Ele nunca me agrediu antes. Eu não fico com homem que agride", ela disse ao jornal.

Aos jurados, ela explicou durante o julgamento que deseja que o namoro deles retome de onde parou – nos tiros, quer dizer -, enquanto ele, condenado por tentativa de feminicídio e porte ilegal de arma, cumpre pena de sete anos em regime semiaberto, com tornozeleira eletrônica. O plano dela é se casar com o rapaz.

Como se reage a uma coisa dessas?

Na internet, a jornalista Cynara Menezes questionou a atitude da moça e leitoras e leitores se dividiram. Uma parte, revoltada, disse que é por causa de gente como Micheli que as mulheres continuam a ser maltratadas.

Outra parte saiu em defesa da moça, dizendo que Cynara não tinha o direito de expô-la. Por acaso ela não sabe que as vítimas de relações abusivas são mulheres frágeis, adoentadas, que se colocam emocionalmente ao lado dos seus algozes por serem incapazes de resistir a eles?

O que vocês acham?

Eu acho que as pessoas e suas relações afetivas são mais complicadas do que as nossas opiniões simplistas.

É evidente que a moça está sendo insanamente leniente com o namorado bom de tiro. Um cristão fervoroso talvez entendesse a necessidade de perdoar intimamente o agressor, mas voltar a namorar com ele, e ajudar a salvar sua pele no julgamento com um beijo de novela, isso ultrapassa os limites da autoestima e da autopreservação. Quando o perdão é demais, o santo também desconfia.

Ao mesmo tempo, a moça não parece de forma alguma aterrorizada por seu agressor. Em vez de se portar de forma submissa ou assustada, age como senhora da situação. Na verdade, faz com que o assassino frustrado pareça um joguete em suas mãos, como na cena do beijo. A ideia da Síndrome de Estocolmo – a reação de alguém tão indefeso e assustado que se apaixona por seu algoz para sobreviver – não fica bem nessa história.

Quando Micheli diz que Lisandro é bom sujeito, que não a agredia e que antes dos tiros ela o provocou até que perdesse a cabeça, talvez devêssemos prestar atenção. Ela certamente acredita no que diz.

Já vi mais de uma jovem confundir com amor a perda de controle dos homens. É como se as explosões de violência ou erotismo fossem um tributo a elas. "Ele enlouqueceu porque me ama demais, porque me deseja demais". Há vaidade e prazer nisso, uma espécie de confirmação por vias tortas do próprio poder de sedução. De achar-se poderosa e irresistível a considerar-se responsável pela reação assassina do parceiro é só um passo, que Micheli parece ter dado sem a menor hesitação: eu sou culpada, não ele.

Outra maneira de olhar os fatos é considerar que o casal de Venâncio Aires vivia uma relação doente, baseada em conflito, gritaria e agressão permanentes. "Era um quadro de ciúme doentio de ambas as partes, e de violência", disse o promotor Pedro Rui de Fontoura Porto.

Há casais que vivem assim, um mergulhado na loucura do outro. Brigam, se separam, se agridem, se insultam, quebram tudo, voltam. Às vezes os dois são agressivos, às vezes só um deles, mas ambos são sócios na empreitada desastrosa. Se apenas um fosse doente, o outro tentaria ir embora. Quando não vai, quando nem tenta, é porque tem parte na turbulência e nos sentimentos intensos que ela provoca.

Entendem?

Se me perguntassem sobre os tiros e o beijo, eu responderia que machismo (da parte dele) e submissão (da parte dela) não explicam satisfatoriamente a situação. Acho que houve um encontro de personalidades complicadas na formação desse casal.

Que ele tenha chegado ao ponto de disparar cinco vezes contra ela em praça pública, depois de um ano e meio de namoro, e que ela se apresente como verdadeira culpada por esse crime, sugere um caso de loucura a dois – ou a três, se considerarmos que o júri caiu na conversa da moça e deu uma sentença levíssima ao cara, com base no argumento de "forte emoção". A vida humana anda barata em Venâncio Aires.

PS – Esta coluna encerra a minha colaboração com o Universa. Foi bom estar aqui, desejo boa sorte aos que permanecem. Quem quiser continuar lendo as colunas, elas serão publicadas toda quarta-feira no endereço ivanmartins.net e divulgadas nas minhas redes sociais. Até mais!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Ivan Martins é psicanalista, jornalista e autor dos livros “Alguém especial” e “Um amor depois do outro”. Irmão mais novo numa família de mulheres, aprendeu muito cedo a fazer xixi erguendo a tampa da privada, e acha que isso lhe fez bem. Escreve sobre relacionamentos desde 2009, tentando entender o que faz do apaixonamento algo tão central à vida humana.

Sobre o Blog

Esta coluna pretende ser um espaço para discutir os sentimentos, as ideias e as circunstâncias que moldam a vida dos casais – e dos aspirantes a casal - no Brasil do século XXI. Bem-vindas e bem-vindos!

Ivan Martins