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O melhor de “Star Wars: a ascensão Skywalker” é a tensão sexual

Ivan Martins

25/12/2019 02h36

Tensão sexual entre atores é coisa fabulosa. A gente sente na pele. Sentados no escurinho do cinema, somos fisgados pela atração irresistível que arrasta um personagem (ou seria um ator?), na direção do outro. Ao nos identificarmos com eles, somos carregados pelos hormônios que circulam em cena.

Tem sido assim desde o cinema mudo, e isso ajuda a explicar o sucesso duradouro dos filmes como forma de entretenimento: sexo implícito e identificação. De alguma forma, a gente vive as sensações que se apresentam na tela, na forma de medo, raiva, triunfo ou derrota. Sobretudo desejo.

Não sei como será a bilheteria de "Star Wars: A ascensão Skywalker", o episódio IX da saga de Guerra nas estrelas, que supostamente é o último. Eu não gostei do filme, embora seja fã de carteirinha da série, mas de uma coisa tenho certeza: nunca houve em toda essa longa narrativa um casal como Daisy Ridley e Adam Driver, ou, se preferirem, Rey e Kylo Ren.

(Pode continuar lendo que não vai ter spoiler).

Desde a primeira vez em que os dois ficam a sós, numa sala de tortura da Primeira Ordem – acontece no Episódio VII, "O despertar da força" – a ligação entre os dois se estabelece de forma intensa e claramente erótica. Ele tenta penetrá-la (mentalmente…) e ela resiste, e passa a penetrar a mente dele. Os dois arfam e grunhem. Ela geme em sofrimento. Tem coisa aí, obviamente.

Nessa cena de tensão e contato – que vai se repetir, de diferentes maneiras, nos dois filmes seguintes – o macho prepotente é confrontado pela garota ingênua e se descobre fascinado pela energia que emana dela. O encantamento é mútuo, claro, mas só pode se exteriorizar como ira e violência. Kylo Ren, afinal, com sua tentativa de seduzi-la para o lado negro, representa algo que Rey precisa conter em si mesma. O que será?

No final desse episódio VII, os dois transformam desejo e atração numa luta espetacular, orgástica, durante a qual ela entra em contato, pela primeira vez, com o poder vulcânico da força. Ele emerge do embate derrotado, com o rosto cortado pelo fio calcinante da espada dela, enquanto ela se descobre intacta e triunfante – os olhos brilhantes, a fronte molhada – em uma nova posição: tendo vencido seu íntimo oponente no combate dos sabres de luz, símbolo viril dos jedis e dos siths, ela agora é um deles, embora mulher e inexperiente.

Vários críticos disseram que essa última trinca de filmes de Star Wars era feminista, mas eu mesmo não tinha me dado conta de quanto isso era verdade até refletir sobre os detalhes. Os homens são desequilibrados do mal (como Kylo Ren) ou tontos desequilibrados do bem (como Finn e Poe Dameron) ou, ainda, tipos hesitantes, cheios de culpas, como Luke Skywalker. Quem segura a onda, quem tem coragem, calma e miolos são as mulheres.

No filme seguinte, o episódio VIII – "Os últimos jedis"– não é muito diferente. Rey vai se tornando cada vez mais poderosa, cada vez mais intuitiva e assertiva em seu domínio da força, enquanto os homens ao seu redor vacilam, esbravejam ou correm de um lado para o outro, salvos ou destruídos por mulheres.

Nesse episódio – o melhor da trilogia, na minha opinião, por ser o mais imaginativo – o desejo sublimado entre Rey e Kylo ganha uma nova fisionomia, familiar a qualquer adolescente apaixonado: a conexão entre os dois "adversários" é tão forte, tão intensa, que eles conseguem se ver, conversar e mesmo se tocar, ainda que estejam em pontos opostos da galáxia.

O casal dispõe de um circuito exclusivo de comunicação melhor do que as redes sociais, mas análogo a elas. O filme gira em torno do envolvimento deles, que ocorre num mundo virtual que apenas os dois habitam. Nele, há troca de segredos e promessas entre os jovens. Adultos inoportunos – como Luke Skywalker – às vezes atrapalham bem na hora em que as coisas estão ficando quentes, como na cena da cabana.

Faz sentido que a heroína pura do filme se envolva com um parricida atormentando como Kylo Ren? Claro, que sim. A moça boazinha que se apaixona pelo delinquente sedutor é um clássico do cinema desde "Acossado", de Jean-Luc Godard, e na vida real acontece toda hora: a mulher que se acha capaz de mudar o caráter do homem problemático, destruído ou pilantra que ela ama. Quem nunca viu esse filme?

Tudo isso, claro, é impulsionado pela presença física e pelo carisma dos atores. Adam Driver, de 36 anos, é considerado o astro mais talentoso da sua geração, um rosto incomum que produz alta voltagem nas telas.  Daisy Ridley, de 27 anos, foi lançada como atriz pela trilogia final de Star Wars. Sua beleza adolescente e seu olhar puro dão a Rey uma intensidade de Joana D'Arc liderando as tropas da República na redenção mística da galáxia.

O match entre os dois parece tão simples quanto inevitável – ou seria esse o resultado de um roteiro bem escrito e de um trabalho competente de interpretação? Nunca saberemos, e não tem a menor importância. No cinema, como em quase tudo na vida, a impressão que fica é a que vale.

Tendo visto os três últimos filmes – como vi os seis anteriores, desde 1977 – me parece que eles são mais dependentes do erotismo do que os demais. Hans Solo e Leia flertavam e até se beijavam nos primeiros filmes (Episódios IV, V e VI), mas o romance entre eles, além de explícito, era menos sensual, e inteiramente lateral à trama. Agora, o desejo secreto, recusado e óbvio de Rey por Kylo Ren, e vice-versa, constitui o núcleo da narrativa,sem o qual o resto desmorona.

Acho que existe aí algo que nos fala sobre a vida real. Na saga particular de cada um, a trama também costuma girar em torno de encontros e desencontros amorosos. Não somos jedis que cruzam a galáxia e esgrimem sabres de luz, mas o amor (ou a ausência do amor) nos segue para onde quer que vamos e informa a maior parte das nossas decisões, mesmo aquelas que parecem não ter nenhuma conexão sentimental.

A vida comum também costuma ser rica em amores sublimados, em paixões que ganham forma de amizade, carinho ou devoção. Às vezes, ódio e desprezo. Isso acontece desde a sexta série, ou mesmo antes, quando jogávamos bolinhas de papel naquele (ou naquela) coleguinha exasperante de escola.

Neste episódio IX de Star Wars, "A ascensão de Skywalker", assim como nos dois episódios anteriores, há montes disso: paixão inconsciente deslocada para outras formas de sentir. Na minha opinião, isso constitui a parte mais divertida do filme. Depois de 42 anos acompanhando as idas e vindas da força, assim como as derrotas e vitórias cada vez mais previsíveis dos rebeldes, estou mais interessado em saber se Kylo Ren vai tirar a máscara, deixar de joguinhos histéricos e, finalmente, convidar a jovem Rey para dormir na nave dele. Passou da hora, aliás.

Sobre o Autor

Ivan Martins é psicanalista, jornalista e autor dos livros “Alguém especial” e “Um amor depois do outro”. Irmão mais novo numa família de mulheres, aprendeu muito cedo a fazer xixi erguendo a tampa da privada, e acha que isso lhe fez bem. Escreve sobre relacionamentos desde 2009, tentando entender o que faz do apaixonamento algo tão central à vida humana.

Sobre o Blog

Esta coluna pretende ser um espaço para discutir os sentimentos, as ideias e as circunstâncias que moldam a vida dos casais – e dos aspirantes a casal - no Brasil do século XXI. Bem-vindas e bem-vindos!

Ivan Martins