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Bicha, preta e favelada: por que é importante falar de Linn da Quebrada

Ivan Martins

10/12/2019 23h00

Se alguém me perguntasse, até sábado passado, quem é Linn da Quebrada, eu responderia com um peremptório "não faço ideia". O nome remete ao funk e, de funk, tudo o que eu sei é o que vaza de forma indesejada das paredes do meu vizinho.

Mas aconteceu, no sábado, que a sessão do filme que eu queria ver estava esgotada, e assim, sem referências, comprei ingresso e sentei numa sala lotada de "Bixa Travesty", o documentário de Kiko Goifman e Claudia Priscilla que tem Linna Pereira como protagonista.

Uau!

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Em 10 minutos, estava arrebatado pela inteligência e pelo talento de Linn, uma travesti negra de 29 anos que saiu das favelas da Zona Leste de São Paulo para chacoalhar preconceitos universais.

Sua performance no palco – a voz estridente, o rebolado obsceno, o corpo bonito – devem muito a Ney Matogrosso, ídolo declarado de Linn que faz uma aparição relâmpago nos créditos do filme.

De Caetano Veloso ela empresta a combatividade e a lucidez performática. Linn discursa cantando, recitando, como Caetano fez muitas vezes em defesa de suas ideias. Há uma linha histórica que conecta os dois no interior da MPB, como se ela fosse uma das consequências possíveis da radicalidade estética e política de Caetano.

Não sei se Linn leu Michel Foucault ou Judith Butler, mas as coisas que diz ao longo do filme, e a forma articulada e segura como as diz, fazem lembrar a obra desses pensadores do corpo e da sexualidade. É impressionante. Onde eles chegaram pela teoria, Linn parece ter chegado com a experiência. Repito: é impressionante que alguém tão jovem – e tão desfavorecida – emerja do trauma social brasileiro pensando com tanta clareza e com tanta radicalidade, com tanta originalidade, acerca daquilo que a constitui e que a cerca.

Como vocês perceberam, fiquei impressionado — sobretudo pela coragem dela em buscar seu próprio caminho existencial. Linn inventa uma condição humana para abrigar sua complexidade e a sua singularidade. Enquanto milhões de nós fazemos o esforço diário de pertencer a qualquer custo, de ser aceitos, ela recusa identificações conformistas e vai se construindo em liberdade, como algo paradoxal.

Não foi Simone de Beauvoir quem disse que "não se nasce uma mulher, torna-se uma mulher"? Pois é.

Linn da Quebrada se declara bicha, preta e favelada num país que (cada vez mais) despreza e discrimina tudo isso. Lembrem de Paraisópolis. Se diz travesti, mas recusa ("por enquanto") o apelo das transformações corporais. "Sou mulher com pinto", canta. No país da homofobia militante, ela denuncia a violência do macho alfa, aquele que ri das bichas mas procura o sexo furtivo com elas. Isso ele não terá mais, ela garante. "Eu quero o corpo todo, não a sua vara", declama Linn. "Se quiser ficar comigo, vai ter de enviadecer".

Que coisa é essa, "enviadecer", seria sinônimo de feminizar-se?

Aliás, o que é "travestividade", outro conceito que ela manipula no filme com a naturalidade de quem cria ao vivo uma teoria identitária pessoal e intransferível. "Sou terrorista de gênero", afirma às gargalhadas, sentada no colo do namorado.

Tudo que vai acima seria material suficiente de assombro e admiração, mas há algo mais. O filme registra a recusa de sua protagonista em se deixar congelar na posição heroica (e tediosa) de guerreira invulnerável.  A mesma pessoa que grita no palco, provocativamente, obscenamente, sussurra logo depois seu desejo de ser percebida "como mulher". Amada como mulher, eu diria. O documentário contém doses enormes de autossuficiência, mas clama por amor e aceitação em cada fotograma. Linn, afinal, é como nós.

– Tô bonita?

– Tá engraçada, responde a letra amarga do funk da travesti.  Uma mulher, afinal, quer ser admirada quando anda pela rua, e não ser vítima de escárnio.

É surpreendente que o Brasil de 2019, com suas hostes de moralistas cheios de ódio, produza artistas como Linn da Quebrada, capaz de tanto vigor poético, autora de um discurso tão crítico, agente irredutível de uma transformação que começa na aparência dela, na atitude dela, e vai se espalhando pelas ruas escuras e esburacadas da periferia de São Paulo.

Essa transformação dá voz e notoriedade a rebeldes transgressoras, mas também beneficia milhões de seres tímidos cujas fantasias dormem sufocadas no armário hipócrita e violento dos costumes brasileiros. Há uma revolução em curso nas vielas da cidade e o funk atrevido de Linn da Quebrada parece ser uma de suas trilhas sonoras.

Sobre o Autor

Ivan Martins é psicanalista, jornalista e autor dos livros “Alguém especial” e “Um amor depois do outro”. Irmão mais novo numa família de mulheres, aprendeu muito cedo a fazer xixi erguendo a tampa da privada, e acha que isso lhe fez bem. Escreve sobre relacionamentos desde 2009, tentando entender o que faz do apaixonamento algo tão central à vida humana.

Sobre o Blog

Esta coluna pretende ser um espaço para discutir os sentimentos, as ideias e as circunstâncias que moldam a vida dos casais – e dos aspirantes a casal - no Brasil do século XXI. Bem-vindas e bem-vindos!

Ivan Martins