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O fantasma da mudança: quer morar junto, mas não quer sair de sua casinha

Ivan Martins

04/09/2019 04h00

(iStock)

Conheço gente que muda de casa como quem troca de roupa, sem pensar duas vezes.

Mas também conheço pessoas ridiculamente apegadas, para quem o lugar em que elas moram se converte, depois de poucas semanas ou meses, em parte integral da personalidade delas.

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Trocar de casa ou de apartamento, para gente assim, é como trocar de pele — uma tarefa emocionalmente impossível.

Conheci um sujeito que teve três casamentos na mesma casa. As mulheres entravam e saiam, mas a cor das paredes continuava a mesma, assim como os móveis, os objetos e os pôsteres dos anos 90.

Ele não admitia mexer em nada, nem era capaz de tentar viver o novo amor em outro lugar, onde ele e a parceira começassem do zero.

Suas relações afetivas eram uma espécie de repetição com destino antecipado. Os amores passavam, mas a casa permanecia, constante como um museu.

Acho que esse comportamento continha uma metáfora sobre o sujeito. Ele parecia preso em algum lugar do passado e tinha dificuldade em mudar de casa, de emprego, de planos, de vida. Era uma pessoa emocionalmente conservadora. Ou emocionalmente aprisionada, se quiserem.

O contrário disso são homens e mulheres que a todo momento parecem dispostos a recomeçar. Apaixonados e impulsivos, eles não precisam de muita reflexão para juntar as coisas e mudar de endereço ou de país.

Costumam ser destemidos também diante de outros desafios: tentar um emprego novo, aderir a um grupo de amigos diferentes, romper com alguma ideia, começar um novo projeto, pôr no mundo um outro ser humano.

Caminham decisivamente para frente, às vezes de forma muito rápida para quem está ao lado, e não costumam parar para enxugar as lágrimas ou olhar para trás. Gente assim não só muda de casa com facilidade como adora derrubar paredes e fazer reformas.

Acho, enfim, que a maneira como as pessoas se relacionam com as casas conta muito sobre a personalidade delas – e tem enorme impacto sobre a vida dos casais.

Se um é do tipo que anseia por mudança e novidades, e o outro gosta de permanecer e repetir, as negociações domésticas, em quase todos os assuntos, serão constantes e acaloradas, e eventualmente alguém terá de ceder.

Lembro de um casal de amigos que sofria horrores na hora de planejar as férias. Ele, um mineiro drummoniano, queria voltar sempre aos lugares que amava. Ela, inquieta, precisava conhecer novas paisagens. As discussões eram intermináveis, mas eles acabavam se entendendo – porque se queriam muito.

Na hora de alugar uma casa, as diferenças de personalidade invariavelmente explodem.

A parte conservadora do casal não vai gostar de nada que os corretores mostrarem, porque, no fundo, tem horror de caminhão de mudanças e de sair do seu canto. Por quê? Para quê? Está tudo tão bem.

A outra parte, que adora pôr a vida em caixas de papelão (e deixar a metade para trás), gostará de quase tudo que os corretores oferecerem, porque, intimamente, tem certeza que qualquer lugar pode ser transformado, e porque sente que uma das coisas mais prazerosas da vida é fazer essa transformação na companhia de quem se ama.

Se pensarmos bem, é quase um milagre que as pessoas consigam entrar em acordo sobre essas coisas. A cada humano corresponde uma ideia particular de casa e de felicidade doméstica, carregada com experiências e afetos da maior intensidade.

Como deixar de lado o modelo de casa que temos em nós para viver, por assim dizer, na casa do outro?

Acho que a resposta a isso é o sentimento universal que chamamos de amor.

Por mim mesmo, pensa o sujeito, ficaria onde estou pelo resto da vida, mas, para vê-la feliz, e para estar feliz ao lado dela, encaro a aventura.

Subo no caminhão de mudança como quem sobe no trampolim mais alto da piscina, e salto de lá apavorado e apaixonado: "Eu te aaaaaammoooooo…". Tchibum!

Sem esse movimento – quer dizer, sem o sentimento amoroso que impulsiona a mudança – a vida seria uma chatice. Provavelmente ainda estaríamos onde começamos, na casa dos pais.

A gente precisa de apaixonamento para se mexer – apaixonamento pelas pessoas, pelas ideias, pelos desafios. Quando falta a paixão que nos liga ao mundo, a vida roda em falso, atola e estagna.

Li na semana passada um romance francês que ilustra dolorosamente a perda do desejo, e como ela tem relação com o ator de morar.

Serotonina, de Michel Houellebecq,

Um quarentão deprimido abandona sua casa e aluga um quartinho de hotel em Paris, onde passa os dias vendo TV. Como ele não sente mais conexão com o mundo, o espaço impessoal de um quarto de hotel lhe serve perfeitamente. Corresponde ao vazio de afetos que se tornou a vida dele. Parece apenas triste, mas o livro vai além.

Ele me fez lembrar como é importante ter um cantinho e preenchê-lo com os nossos amores e os nossos amigos, lembrando, a cada momento, que são os lugares que passam e as pessoas que ficam, e não o contrário.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Ivan Martins é psicanalista, jornalista e autor dos livros “Alguém especial” e “Um amor depois do outro”. Irmão mais novo numa família de mulheres, aprendeu muito cedo a fazer xixi erguendo a tampa da privada, e acha que isso lhe fez bem. Escreve sobre relacionamentos desde 2009, tentando entender o que faz do apaixonamento algo tão central à vida humana.

Sobre o Blog

Esta coluna pretende ser um espaço para discutir os sentimentos, as ideias e as circunstâncias que moldam a vida dos casais – e dos aspirantes a casal - no Brasil do século XXI. Bem-vindas e bem-vindos!