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Amor incondicional? Isso não existe nem em filme

Ivan Martins

26/11/2019 23h40

Na vida real, como no cinema, adoro um melodrama. Aprendi com a minha mãe a gostar de filmes em que as emoções e a tragédia dominam a cena, mas foi por conta própria que descobri minha vocação para o sentimentalismo na vida pessoal. Sem um romance que nos balance, qual a graça?

Por nostalgia da mãe, ou por identificação secreta com os personagens, saí do cinema tocado por "A vida invisível", o filme do diretor Karim Aïnouz que vai representar o Brasil no Oscar.

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Ele conta a história de duas irmãs no Rio de Janeiro dos anos 1950. Uma é obediente e artística, a outra é rebelde e sensual. Elas se adoram, e o destino que o filme dá a elas, num mundo medonhamente machista, faz lembrar as histórias do espanhol Pedro Almodóvar: cores intensas, idas e vindas inesperadas e, sobretudo, a sensação de que as irmãs (assim como nós) são vítimas da paixão e do inesperado.

"A vida invisível" é um maravilhoso melodrama, daqueles que faz a gente sair chorando do cinema.

Todo mundo está falando, com razão, de como o filme, sem gastar um segundo com proselitismo, nos faz pensar que o machismo dos anos 50 tornou-se atual no Brasil de 2019.

Há entre nós, neste momento da vida do país, um monte de homens poderosos falando de Deus, pátria e família, com o intuito mal disfarçado de recolocar as mulheres dentro de casa, onde elas poderão procriar, servir cafezinho e, de vez em quando, levar uns safanões, para lembrar quem manda.

Por colocar essas coisas em debate, o filme é obviamente relevante. Mas eu fiquei impressionado com um aspecto mais sutil da trama, aquele que sugere que não existe amor incondicional.

Uma mãe pode abandonar a filha à própria sorte por lealdade ao marido intransigente. Uma mulher apaixonada pode se desiludir e virar as costas a um homem que age como cafajeste. Um marido pode prejudicar a vida da mulher que ama por medo de perder controle sobre ela.

O amor é um entre os tantos sentimentos que determinam nossa existência, e nem sempre o mais importante. Existe também vergonha, medo, raiva, ciúme, inveja, e, sobretudo, o maldito senso de honra.

Pais intolerantes podem sacrificar o amor (e mesmo a segurança) de seus filhos a regras morais que proíbem isto ou aquilo. Eles lançam filhas grávidas na rua e filhos gays ao desamparo por não aceitarem suas escolhas, porque eles não correspondem às suas aspirações ou não compartilham suas convicções religiosas, morais ou políticas.

Acredito, piamente, que há muitos pais que, secretamente e mesmo sem saber, têm inveja da liberdade ou da coragem dos filhos – porque seus filhos foram capazes de buscar a felicidade a que eles mesmos renunciaram por covardia, preguiça ou falta de imaginação.

Onde fica o amor incondicional nesses casos?

Quando eu era criança, se dizia que o amor entre um homem e uma mulher era para sempre. Isso é outra forma dizer que o amor é incondicional. Mas a gente sabe que não é, nunca foi. As pessoas se desiludem. Elas deixam de amar e de admirar. Elas se desapontam com aquilo que o outro revela ser, ou se tornou. Os sentimentos mudam. Quando isso acontece, elas podem viver para sempre o inferno conjugal da falta de amor (e da abundância de desprezo) ou podem dar a si mesmas a chance de recomeçar.

Com delicadeza, o filme de Karin Aïnouz – baseado no romance de Marta Batalha – põe na tela um outro tipo de sentimento, o do homem que teme perder a mulher que ama para o sonho dela. Esse é um afeto triste que não parece ter mudado desde os anos 50. Na verdade, está piorando. As mulheres aspiram, estudam, se preparam e, quando, olham para o lado, veem um companheiro profundamente ressentido com o sucesso delas.

Por razões econômicas e culturais, nossa sociedade está produzindo em série homens derrotados e desamparados, e muitos deles não suportam ser superados pelas mulheres. Reagem com misoginia, violência e crime. Estão aí as estatísticas de feminicídio e violência doméstica para provar.

Outros homens fazem uma espécie de resistência passiva contra o avanço feminino. Por meio da sabotagem emocional, tornam impossível para as suas mulheres manter estável o tripé romance-maternidade-trabalho. Se ela quer um sujeito que a ame e uma família que a complete, vai ter de renunciar ao protagonismo social, profissional.

Entendem?

Tudo isso é emocionalmente complicado e, ao mesmo tempo, simples. A gente vê um filme sobre os anos 50 e percebe claramente os absurdos que se praticavam contra as mulheres 70 anos atrás. Qual o problema em perceber o que está errado hoje em dia, diante dos nossos olhos? Para isso também servem os bons melodramas, como "A vida invisível": para nos fazer refletir, além de chorar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Ivan Martins é psicanalista, jornalista e autor dos livros “Alguém especial” e “Um amor depois do outro”. Irmão mais novo numa família de mulheres, aprendeu muito cedo a fazer xixi erguendo a tampa da privada, e acha que isso lhe fez bem. Escreve sobre relacionamentos desde 2009, tentando entender o que faz do apaixonamento algo tão central à vida humana.

Sobre o Blog

Esta coluna pretende ser um espaço para discutir os sentimentos, as ideias e as circunstâncias que moldam a vida dos casais – e dos aspirantes a casal - no Brasil do século XXI. Bem-vindas e bem-vindos!

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