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Amizade é para sempre? Nem sempre

Ivan Martins

08/01/2020 04h00

iStock

Entre o Natal e o Ano Novo, almocei com um amigo preocupado com o encolhimento das suas amizades.

Aos 20 anos, ele passava o réveillon na praia com um bando de 30 pessoas. Aos 30 e poucos anos, alugava um sítio com um grupo de 15 festeiros. Na semana passada, tendo ultrapassado os 40, ele iria começar 2020 jantando em companhia da mulher e de meia dúzia de almas queridas.

"O que aconteceu", ele me pergunta. "Onde foram parar os meus amigos"?

Eles, provavelmente, estão vivendo uma situação semelhante, e se fazendo a mesma pergunta – que não tem resposta óbvia.

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Por que não mantemos as mesmas amizades desde a infância, desde o colégio, desde a faculdade? Por que permitimos que aquele grupo do bairro, da igreja e do trabalho se dispersasse? Por que os amigos se vão, ou nós nos afastamos deles?

Eu não sei.

O que eu sei, com base na minha limitada experiência, é que grupos de amigos repetidamente se desfazem, as relações pessoais se esgarçam e, com o passar do tempo, as reuniões vão ficando menores. Num dado momento a lista dos íntimos começa a caber nos dedos das mãos.

Sei também que não há nada de errado nisso.

A vida é impulsionada por uma força de mudança que não isenta as relações de amizade. Os amigos mudam como muda todo resto, como nós mudamos. Se não fosse assim, meu melhor amigo ainda seria o Walter, parceiro inseparável entre os 13 e os 14 anos, alter ego turbulento da minha adolescência bem-comportada. O que é feito do Walter hoje em dia? Não faço ideia.

Sei, porém, onde está boa parte dos amigos do colégio, da faculdade, do começo da vida profissional. Falo com eles de vez em quando, fico feliz em encontrá-los, mas aquilo que nos mantinha ligados não existe mais. Não há grupo de WhatsApp capaz de recriar os laços que ficaram no passado.

Conheço gente que tenta, ativamente, manter amizades antigas. Promovem festas, fazem encontros, se empenham em telefonar, saber, contar, encontrar. Acho louvável, acho bonito, mas suspeito que a vida tenha uma inércia que se opõe a essa resistência. Quando a enxurrada da mudança nos leva em direção contrária à vida do outro, não adianta amarrar uma corda. Uma hora o vínculo se rompe e as pessoas se afastam. Fica o carinho e uma enorme nostalgia. Viveremos com essa ausência.

Sempre existe, claro, a possibilidade de recusar a mudança e ser adolescente para sempre, imerso no bando barulhento e protetor. É uma opção popular nos dias que correm. A festa não pode parar porque as pessoas não sabem o que fazer com elas mesmas quando se instala o silêncio e sobrevém a lucidez.

Eu entendo.

Todos sentimos a mesma aflição. A ideia de envelhecer é assustadora. A solidão é um buraco escuro e frio. Mas a festa permanente é uma alternativa insustentável. Sempre chega o momento em que a música acaba, todo mundo vai embora e alguém fica sozinho na calçada.

Se existe uma solução para a angústia causada pelo afastamento dos amigos – e eu não sei se existe – ela está em abraçar a transformação. Os tempos mudam, nós mudamos, e as nossas amizades também. Existe um movimento de perda de amigos ao longo da vida, mas existe, também, um movimento de conquista. Uma amiga se mudou para a Espanha, outro se tornou bolsonarista, mas, no lugar deles, outras pessoas estão se aproximando e se tornando essenciais.

Se a gente se mantém emocionalmente viva, inserida no mundo, vai esbarrar constantemente em novos grupos e pessoas. É um resultado quase inevitável de estar integrado ao mundo. A gente conhece, se encanta e se envolve com os outros. A amizade surge como uma espécie de enamoramento. Ninguém sabe direito por que acontece e quanto tempo dura, mas acontece, e dura o tempo que tiver de durar. Desfrutemos.

Foi mais ou menos isso o que eu disse ao meu amigo durante o almoço. Ele não ficou inteiramente satisfeito, mas rimos do assunto. Lembrei a ele que nos conhecíamos há décadas, e que a amizade persistia. Prometemos a nós mesmo que, se a vida permitir, o próximo réveillon será novamente na praia, com um bando enorme e barulhento – todos que ainda for possível resgatar, mesmo que seja uma sólida meia dúzia.

Sobre o Autor

Ivan Martins é psicanalista, jornalista e autor dos livros “Alguém especial” e “Um amor depois do outro”. Irmão mais novo numa família de mulheres, aprendeu muito cedo a fazer xixi erguendo a tampa da privada, e acha que isso lhe fez bem. Escreve sobre relacionamentos desde 2009, tentando entender o que faz do apaixonamento algo tão central à vida humana.

Sobre o Blog

Esta coluna pretende ser um espaço para discutir os sentimentos, as ideias e as circunstâncias que moldam a vida dos casais – e dos aspirantes a casal - no Brasil do século XXI. Bem-vindas e bem-vindos!

Ivan Martins