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Paraisópolis: como essas mortes podem nos deixar indiferentes?

Ivan Martins

03/12/2019 23h30

Lalo de Almeida (Folhapress)

Em frente à minha casa mora um rapaz que adora funk. Na mesma noite em que eu me mudei, uma sexta-feira, tive de sair na chuva às três horas da manhã para pedir a ele que abaixasse a música porque, afinal, eram três horas da manhã, né? Depois disso houve mais uma visita-campainha-conversa tarde de noite e, afinal, nos entendemos: se a música está muito alta, mando um WhatsApp para ele, que responde abaixando o volume. Não é o paraíso para nenhum dos dois, mas temos convivido em paz. Nesse ínterim, aprendi até a gostar do garoto. Ele é educado e atencioso, à maneira dele, e me faz lembrar que eu também já tive 18 anos e gostei de dançar até de manhãzinha. Faz tempo isso.

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Para a sorte dele, e para a minha, nós dois moramos num bairro em que os conflitos se resolvem conversando. Eu detesto a ideia de chamar a polícia para tratar de problemas pessoais, mas, ainda que chamasse, tenho certeza que ela abordaria o meu jovem vizinho com respeito: é um rapaz branco, de classe média alta e mora numa casa imponente, numa rua aprazível. Se fosse necessário, o pai dele conversaria elegantemente com os policiais e os faria entender que aquele comportamento inadequado era coisa de jovem rebelde: "Quem nunca fez essas coisas", perguntaria. E os policiais ririam, felizes com aquele instante de intimidade com o andar de cima.

Em outras partes da cidade, o desfecho de uma situação como essa seria outro. Há bairros em que a polícia chega jogando bombas no meio da festa, batendo impiedosamente, encurralando adolescentes assustados em vielas escuras das quais não podem escapar – e ali eles morrem esmagados como bichos, como se não fossem garotos e garotas cheios de sonhos. Se morassem em Perdizes ou Higienópolis, os nove jovens que morreram em Paraisópolis no domingo (01) estariam vivos, como vivo está, e bem, o meu vizinho que adora funk.

Como se vive e se ama num país em que acontece esse tipo de coisa? Como a gente toma café e vai para o trabalho sabendo que esse crime não será realmente investigado e de forma nenhuma punido? Como a gente respira, a cada par de segundos, tendo consciência de que milhões de pessoas, milhões de pessoas ao nosso redor, aplaudem a morte desses adolescentes, alguns deles quase crianças, como se fosse a eliminação de facínoras perigosos? Como a gente faz, diante do espelho, sabendo que não está fazendo nada, literalmente nada, para reparar essa monstruosidade, para se opor a essa hedionda covardia?

Passados três dias das mortes em Paraisópolis, tenho a impressão de que o Brasil nem piscou diante do massacre. A morte de Gugu Liberato, ocorrida num acidente doméstico em Miami, causou mais comoção. Ele era uma celebridade, afinal, uma pessoa famosa. Os fãs puderam ir à beira do caixão fazer selfies e distribuí-los nas redes sociais. As televisões transmitiram ao vivo. Os jovens mortos de Paraisópolis, em comparação, não eram ninguém, no sentido de que gente pobre e anônima no Brasil não é ninguém, nem cidadão. Quem chora pelas pessoas assassinadas na periferia das grandes cidades? Quem se importa com a dor das famílias delas?

Diante dessa monumental indiferença brasileira, tenho a sensação de que perdemos a coragem de sentir. Amputamos nossos sentimentos para sobreviver. Se nos deixássemos tocar pela dor de todos os mortos e injustiçados, seríamos obrigados a fazer alguma coisa, a reagir, a nos colocar em risco. Melhor, então, não sentir nada. Muito mais seguro nos alienarmos no conforto da nossa vida íntima, cheia de pequenas gratificações. Ao fazer isso, claro, nos tornamos menos que humanos, e deixamos as ruas e a vida pública aos predadores, aos monstros. A qualquer momento eles poderão invadir o nosso espaço protegido e cobrar a parte deles da nossa felicidade. Já aconteceu antes, em outras épocas e lugares.

Talvez no Brasil de 2019 não sejamos mais capazes de luto coletivo. Não existem mais perdas emocionais e afetivas que atinjam a todos, como sociedade. Viramos um bando de indivíduos desamparados, miseravelmente fragmentados, vivendo em bolhas espessas e opacas, cada vez menores. Não temos vínculos verdadeiros com o mundo exterior, logo, não há perdas que nos façam desmoronar. Não há luto digno desse nome. Tudo que perece é rapidamente substituído. Não existe uma ligação profunda que precise ser desfeita aos poucos, e dolorosamente, com quem desapareceu. Gugu morreu, quem é o próximo? Quem eram, afinal, essas pessoas em Paraisópolis?

Nos dizem que o funk do domingo continuou até o amanhecer, mesmo depois das mortes — e não deveria haver surpresa nisso. O país tampouco parou. As autoridades não se incomodaram. A cidade continuou a viver como se nada tivesse acontecido. Cada família chora e enterra seus mortos solitariamente, e é assim que deve ser na modernidade vazia que nos oferecem. Não há sociedade, só famílias. Se não aconteceu com você ou com os seus, não aconteceu. Na barbárie em que vamos nos metendo, não há espaço para a empatia e solidariedade fora dos laços de sangue. O lema do Brasil que escolhemos é simples e direto: "Ema, ema, ema, cada um com seus problema". A rima pobre virou modo de vida num país que afunda em silêncio. Ou morre pisoteado numa viela escura de Paraisópolis.

Sobre o Autor

Ivan Martins é psicanalista, jornalista e autor dos livros “Alguém especial” e “Um amor depois do outro”. Irmão mais novo numa família de mulheres, aprendeu muito cedo a fazer xixi erguendo a tampa da privada, e acha que isso lhe fez bem. Escreve sobre relacionamentos desde 2009, tentando entender o que faz do apaixonamento algo tão central à vida humana.

Sobre o Blog

Esta coluna pretende ser um espaço para discutir os sentimentos, as ideias e as circunstâncias que moldam a vida dos casais – e dos aspirantes a casal - no Brasil do século XXI. Bem-vindas e bem-vindos!

Ivan Martins