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Conchinha ou cama diferente? Pior que dormir junto, só dormir separado

Ivan Martins

07/08/2019 04h00

Dormir com alguém é um perrengue? Pode ser. Mas é muito bom também (iStock)

Imagine o que significa, para alguém que não gosta de bichos, acordar no meio da noite, pelada, sentindo as patas de um animal caminhando em suas costas. Aconteceu com uma amiga minha na primeira noite em que dormiu na casa de um cara que viria a ser seu namorado.

Ela despertou com um pulo e se viu numa cama estranha, encarando um gato de aparência inamistosa. Quase saiu correndo na direção do celular e do Uber, mas se conteve. Olhou de novo para o sujeito, que roncava feliz ao lado dela, e decidiu que valia o perrengue. Se acomodou no ombro dele e voltou a dormir, com gato e tudo.

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Com mais ou menos drama, acho que muita gente já passou por situações complicadas ao dividir a cama. Na primeira ou na centésima vez, é sempre um desafio partilhar o momento de dormir com outro ser humano, por um amontoado de razões.

Lembro de outra amiga, magrinha e miúda, que namorava um cara grandalhão. Ela não cansava de contar, meio aflita, meio excitada, como era difícil respirar quando o cara jogava "o braço enorme" sobre ela. Minha amiga tentava se esquivar dormindo na beira da cama, mas o sujeito, carente adormecido, a encurralava no meio da noite com seu abraço sufocante.

Durante a faculdade, por causa dessas dificuldades, eu adquiri o hábito excêntrico de dormir no chão, depois de transar. Achava impossível pegar no sono naquelas caminhas de solteiro mambembes, onde mal cabia um. Demorou para perceber que a minha atitude era sentida como rejeição pelas parceiras. Comecei então a ficar na conchinha, apertado e resignado, e com o tempo aprendi a gostar.

Hoje, em cama mais ampla, me parece que a única coisa pior do que dormir junto é dormir separado.

Do ponto de vista da necessidade de descanso, veja bem, não tenho dúvida de que estar sozinho funciona melhor. A gente escolhe a hora de apagar a luz, se posiciona da forma que quiser na cama, se mexe à vontade e não corre o risco (na verdade, a certeza) de ser acordado por um toque, um movimento ou um barulho feito pelo outro. Descansa mais e melhor.

O sono, na vida dos casais, está sujeito a acomodações e negociações, como todo o resto. Seria legal assistir na cama a mais um episódio daquela série viciante, mas ela tem de acordar às seis da manhã, já apagou a luz e está ostensivamente de olhos fechados, esperando você desligar o abajur e se aquietar. Vai encarar?

Se o seu o namorado bebeu demais e está roncando alto,  se a sua mulher está com insônia e não para de se mexer, se aconteceu entre vocês uma daquelas brigas, talvez seja inevitável alguém ocupar o sofá da sala ou a cama do quarto de hóspedes, mas eu considero esses movimentos uma espécie de último recurso.

Para além das questões de conforto e bem-estar, existe uma cumplicidade em dormir junto que talvez deva ser mantida, mesmo com algum sacrifício. As últimas palavras que se troca de noite, o primeiro olhar pela manhã, essas são coisas que ancoram a relação subjetivamente, e estabelecem uma parceria rotineira e tranquilizadora. Dormir na mesma hora, depois de conversar um pouco, é como jantar ou tomar café da manhã a dois. Não parece essencial, mas, se você consegue fazer todos os dias, a vida fica mais gostosa, e anda melhor.

Não se deve esquecer que a noite costuma evocar nossos temores mais profundos, e contra eles a natureza humana não oferece proteção maior do que o contato quente de outra pele, e uma respiração tranquila e familiar. Quem está ali, naquela posição e naquela situação, vai se tornando essencial.

A gente cresce vendo os pais dormirem juntos — às vezes conosco no meio — e tenho a impressão de que um pedaço importante da nossa personalidade anseia, de forma consciente ou não, por ocupar esse lugar adulto na cama, um espaço ao mesmo tempo de erotismo e de poder.

Alguém dirá: o cara não está falando de sexo, só de dormir! Alto lá, estou falando de sexo, sim. Tocar os pés do outro com seus pés, ou mexer nos cabelos dela antes de dormir, são gestos de amor (e de desejo) que sinalizam que há vida sob os lençóis. Transar, como diria aquele técnico de futebol sobre o gol, é consequência da harmonia e da intimidade do casal. Não adianta querer fazer sexo com uma mulher com quem você não conversa, que não ri com você, que não chora no seu ombro quando está morta de medo do que acabou de ler no celular.

Se você está na cama quando ela sai cheirosa do banho e vai se desenrolando da toalha para pôr o pijama, as chances de uma transa gostosa são maiores. Bem maiores. Vale o mesmo para a mulher que espera o marido se deitar lendo um livro. Acho que estar ali, naquele momento do fim do dia, emocionalmente disponível, estimula a vida sexual de todo mundo: duas mulheres, dois homens, qualquer combinação. O que cria a possibilidade do desejo é a intimidade.

Quando eu era criança, a gente assistia na TV a séries e filmes americanos em que os casais dormiam em camas separadas, no mesmo quarto. Não sei se isso acabou na sociedade americana ou se nunca existiu, se era apenas uma invenção moralista de Hollywood. De qualquer forma, não se vê mais aquelas caminhas de solteiro lado a lado. Os gringos descobriram a cama de casal.

Aqui, no Brasil de 2019, ouço falar de gente que prefere quartos separados, ou casas separadas, para dormir em paz. Suponho que vão para cama juntos para transar. Eu compreendo, mas acho um empobrecimento. Em nome do conforto se deixa de lado algo essencial.

Parte importante da vida afetiva pressupõe ceder espaço ao outro e se deixar incomodar por ele, pela presença dele, pelas questões dele. Se a gente não consegue abrir dentro de nós esse espaço para receber e conviver, vamos precisar de camas e casas cada vez maiores.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Ivan Martins é psicanalista, jornalista e autor dos livros “Alguém especial” e “Um amor depois do outro”. Irmão mais novo numa família de mulheres, aprendeu muito cedo a fazer xixi erguendo a tampa da privada, e acha que isso lhe fez bem. Escreve sobre relacionamentos desde 2009, tentando entender o que faz do apaixonamento algo tão central à vida humana.

Sobre o Blog

Esta coluna pretende ser um espaço para discutir os sentimentos, as ideias e as circunstâncias que moldam a vida dos casais – e dos aspirantes a casal - no Brasil do século XXI. Bem-vindas e bem-vindos!