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É bom viver além das convenções amorosas?

Ivan Martins

19/11/2019 23h57

(iStock)

Aos 17 anos, inspirado pelo meus meus ídolo intelectuais, eu achava que a vida afetiva de adulto, para ter sentido, teria de acontecer fora das convenções que haviam ditado o comportamento dos meus pais.

Casamento, monogamia, filhos: tudo seria substituído por uma sucessão de aventuras erótico-lisérgicas que me levariam cada vez mais longe, na direção de experiências existenciais tão espetaculares quanto inéditas.

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Esses desejos estavam ancorados, claro, no impulso da sexualidade adolescente, que ansiava chegar ao mar de corpos femininos que todos diziam estar ali na esquina, mas que conseguira me evitar desde que eu tinha 14 anos.

Quando, meu deus, começariam para mim aquelas experiências sexuais arrebatadoras que eu lia nos livros, via nos filmes e ouvia, em detalhes escabrosos e excitantes, dos colegas mais velhos, mais vividos e (hoje eu sei) muito mais mentirosos?

Quando penso nas aspirações desse garoto que eu era, tenho vontade de rir da ingenuidade e da pureza dele. Eu me julgava tão mais rebelde do que realmente era, me achava tão disposto a transgressão.

Tudo bobagem.

Rapidamente, fui levado a perceber que aquilo que eu secretamente desejava era reproduzir com mais sucesso a vida amorosa dos meus pais: casamento, monogamia, filhos e uma Variant azul com 10 anos de uso estacionada na garagem.

E assim foi.

Mais tarde, muito mais tarde, outra existência adulta começou. Ela não era como a dos autores existencialistas que eu lia, mas tampouco era igual à experiência dos meus pais que eu tentara aprimorar. Era outra vida, em outro tempo, mas ainda presa por um fio de afeto às antigas convenções.

Hoje, olhando o passado pelo espelho, me pergunto se é possível viver muito além das convenções, aquelas que determinam, por exemplo, que as pessoas organizam suas vidas afetivas em casais.

Tenho visto muita gente tentar, mas não vi ninguém criar alguma coisa realmente nova. No longo prazo, digo.

As pessoas fazem toda espécie de experimentações, por muitos anos fogem de relacionamentos monogâmicos, mas aí algo acontece – alguém acontece, melhor dizendo – e as convicções de autonomia e independência se dissolvem num amor tranquilo, daqueles que demanda convívio, planos, meias misturadas na máquina de lavar.

Há, claro, gente que resiste ao cerco e permanece livre, vivendo o fluxo contínuo de novos parceiros, novos sentimentos, novas atrações – mas eu tenho duas coisas a dizer sobre isso, e espero que elas não soem como julgamentos morais, porque não são.

A primeira coisa a dizer é que, na minha experiência, esse negócio de relacionamentos passageiros se torna vazio e repetitivo. É gostosa a sedução, é bom beijar uma nova boca, é uma delícia ver um corpo nu pela primeira vez. Quem nega o prazer dessas coisas provavelmente não as viveu.

Mas a repetição através dos anos aniquila a originalidade de qualquer experiência. De tanto entrarem e saírem de cena, os corpos e personalidades vão se tornando parecidos entre si, e muito menos gratificantes do que costumavam ser. Aos 20 anos, as trocas de parceiros e parceiras têm um sabor. Aos 40, definitivamente, não é mais a mesma coisa – e isso apenas se acentua com o passar do te  .

Ao chegar nesse momento, ao ter a percepção da repetição, as pessoas costumam notar, também, que o grande barato não está no corpo ou na cara nova, nem apenas na excitação da sedução, mas sim nos sentimentos que uma determinada pessoa provoca, mais do que outras. Essa conexão emocional costuma ser mais forte e vibrante do que a outra, simplesmente física, e a pessoa que a vivencia com reciprocidade acaba escorrendo, naturalmente, para uma forma bem contemporânea e convencional de relacionamento: a monogamia serial, que muitas vezes se transforma em relação estável e duradoura.

A outra coisa que eu queria dizer sobre esse fluxo de parceiros variados é que se trata, muitas vezes, de uma experiência enganosa. A pessoa entra nessa porque quer liberdade, porque não quer ter que mentir a ninguém, porque não quer que lhe encham o saco – mas, rapidamente, se descobre envolvida em tudo que não queria. Gente com múltiplos relacionamentos tende a mentir muito, sofrer estresse e levar uma vida terrivelmente complicada.

Em vez de um parceiro cobrando e enchendo o saco, são vários. Como não dá para abrir o coração com todo mundo, sobretudo com a parceira ou parceiro que é apenas mais um na fila do pão, a pessoa que tem múltiplos envolvimentos tende a contar pequenas e grandes mentiras a cada um deles. Precisa ocultar, omitir, fingir, disfarçar. Esses expedientes são mais ou menos inevitáveis, e tornam a vida amorosa angustiante – além de emocionalmente empobrecida.

Quem tem vários parceiros frequentemente não tem nenhum com quem possa realmente contar, com quem possa falar, a quem possa abrir sua alma. Quem tem vários parceiros não costuma se entregar de verdade a ninguém. As relações tendem a ser afetivamente limitadas, meio narcisistas, cada um pegando o que pode do outro sem dar muito em troca. Um jogo de futebol que sempre termina zero a zero porque ninguém sai da defesa.

Entendem?

Acho que os relacionamentos convencionais – duas pessoas numa relação afetuosa e monogâmica – têm chatices e limitações, mas permitem que as partes envolvidas se desenvolvam emocionalmente. As pessoas podem ser verdadeiras uma com a outra, podem ficar à vontade, podem se mostrar como são. Por um acordo não dito, todos renunciam às máscaras vazias da sedução.

Esse tipo de convívio ensina, aprofunda, acolhe e apaixona de verdade. Ele abre a porta ao amor. Não tem de durar 10 anos, não precisa ser pelo resto da vida, não pode se constituir numa prisão de sentimentos acabados, mas, a meu ver, tem de ser um envolvimento profundo e verdadeiro de cada vez, e precisa ser cuidado com respeito e atenção.

Enquanto esse grande apaixonamento não acontece, a gente procura e se diverte, sem culpa. Se demorar 30 anos para o amor aparecer, talvez seja legal falar com um analista.

Quando eu tinha 17 anos, e me achava Jean-Paul Sartre esperando pela minha Simone de Beauvoir, não pensava nada disso – mas, naquela época, eu não sabia nada sobre a vida, não tinha vivido nada, nem poderia entender que Sartre e Simone, com a sua famosa relação aberta, tiveram uma vida afetiva que eu, como adulto, acho bem precária. Sobretudo a dela.

Passadas várias décadas, estou em paz com as convenções. Até as recomendo, moderadamente e caso a caso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Ivan Martins é psicanalista, jornalista e autor dos livros “Alguém especial” e “Um amor depois do outro”. Irmão mais novo numa família de mulheres, aprendeu muito cedo a fazer xixi erguendo a tampa da privada, e acha que isso lhe fez bem. Escreve sobre relacionamentos desde 2009, tentando entender o que faz do apaixonamento algo tão central à vida humana.

Sobre o Blog

Esta coluna pretende ser um espaço para discutir os sentimentos, as ideias e as circunstâncias que moldam a vida dos casais – e dos aspirantes a casal - no Brasil do século XXI. Bem-vindas e bem-vindos!

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