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Ele difamou ex na internet: traição é assunto privado, não para rede social

Ivan Martins

05/11/2019 23h33

O tribunal da internet fere todo mundo (iStock)

Ser enganado por quem a gente ama é um horror.

Há poucas dores tão intensas quanto essa.

É como se um buraco se abrisse aos nossos pés e fôssemos tragados por um oceano de ódio e vergonha.

As pessoas que nunca experimentaram esse tipo de sensação deveriam ser gratas às pessoas com que se envolveram – pela fidelidade ou pela discrição.

Me dizem que para uma certa cultura pós-moderna esses desapontamentos não constituem um problema.

À medida em que as relações vão ficando fluidas – líquidas, diria Zygmunt Bauman — também a resposta emocional a elas vai sendo modulada para se tornar mais prática.

Mentiu, enganou, traiu? Não tem problema.

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Se ninguém é de ninguém, ninguém tem direito a cobrar nada de ninguém, nem deveria sentir isso ou aquilo, certo?

Errado, porque na vida real as pessoas ainda sentem e cobram, mesmo que não digam.

Nossas emoções não estão submetidas à ideologias libertárias ou à transitoriedade do mercado.

Sofremos como bicho atropelado ao descobrir que a pessoa que a gente ama mantém relações paralelas.

É devastador.

Se a pessoa nos disser a verdade, se avisar que o desastre vai acontecer, talvez doa igual, mas teremos a chance de escolher o rumo a seguir e a decisão a tomar.

Gente enganada não escolhe, apenas sofre o efeito da escolha dos outros. Vira vítima.

É muito ruim.

Há gente que não vive assim, claro. Há pessoas consensualmente livres e poligâmicas, e está tudo bem. É outra forma de contrato.

Mas a maioria dos homens e mulheres que eu conheço habita um universo monogâmico que pressupõe respeito, cuidado e lealdade ao parceiro.

A maioria espera exclusividade sexual e afetiva e se compromete a oferecê-la.

Por isso, quando descobrem que estão sendo enganados, desabam espetacularmente – e às vezes enlouquecem.

Soube de um homem em São Paulo que foi às redes sociais denunciar sua ex-mulher por traição.

Expôs a vida profissional dela, denunciou o seu parceiro clandestino, falou de como ele "e os filhos" estavam sofrendo.

Foi um misto de assassinato e suicídio virtual.

Li o post tomado de repulsa e piedade por todos os envolvidos.

Entendo o sofrimento do sujeito, mas ele deveria saber que não se pode simplesmente devolver ao outro a violência dos seus próprios sentimentos.

A Lei, com L maiúsculo, impede.

Sofrer não autoriza retaliar de qualquer jeito.

A posição de vítima não legitima qualquer forma de vingança e nenhuma forma de violência.

É simples assim.

A dor de amor não está no código penal, a despeito da sua enormidade.

Ser traído, ser trocado, ser esquecido são coisas que temos de aprender a suportar – do contrário, cada um de nós teria matado ou agredido um monte de pessoas ao longo da vida.

Quem nunca sofreu pela falta de amor da família, dos amigos, dos chefes, dos parceiros românticos?

Pois é.

A pessoa enganada não precisa ser compreensiva com quem a enganou, nem tem de virar melhor amiga dela.

Quem nos engana talvez mereça desprezo e tem direito a ouvir poucas e boas.

Se a pessoa ferida nunca mais olhar quem mentiu para ela, é seu direito – mas a represália para por aí.

Usar as redes sociais para jogar lama, ou apelar para qualquer forma de assédio ou violência, rompe com aquilo que se entende coletivamente como aceitável.

Traição é um assunto imensamente doloroso, mas privado. Ele começa e termina na esfera do casal. Não diz respeito à família, aos amigos e muito menos a estranhos.

Quando a gente enlouquece de dor, acha que não é assim, quer botar fogo no circo, mas a dor é péssima conselheira.

Num dia ela nos diz para destruir a vida dos outros. No outro, nos faz perceber que destruímos um pedaço enorme da nossa própria vida e do nosso auto respeito.

Em caso de mentira inaceitável, melhor virar as costas e procurar ajuda para aprender a suportar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Ivan Martins é psicanalista, jornalista e autor dos livros “Alguém especial” e “Um amor depois do outro”. Irmão mais novo numa família de mulheres, aprendeu muito cedo a fazer xixi erguendo a tampa da privada, e acha que isso lhe fez bem. Escreve sobre relacionamentos desde 2009, tentando entender o que faz do apaixonamento algo tão central à vida humana.

Sobre o Blog

Esta coluna pretende ser um espaço para discutir os sentimentos, as ideias e as circunstâncias que moldam a vida dos casais – e dos aspirantes a casal - no Brasil do século XXI. Bem-vindas e bem-vindos!

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