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A pedofilia tem relação com as agressões sexuais contra mulheres?

Ivan Martins

02/10/2019 00h01

 

(iStock)

Jornais americanos e brasileiros desta semana estão cheios de notícias sobre o crescimento vertiginoso dos casos de abuso sexual contra crianças, dentro e fora da internet.

No Brasil, a Folha de segunda-feira trouxe um monte de estatísticas alarmantes sobre o abuso sexual contra crianças e adolescentes, mostrando que ele costuma se repetir com as mesmas vítimas, algo particularmente horrível.

Nos Estados Unidos, o The New York Times mostrou no domingo que a circulação digital de fotos e vídeos pornográficos envolvendo crianças explodiu, sem que as autoridades ou as empresas de internet consigam controlá-la. Já não se fala mais em epidemia, mas em coisa maior e pior, na casa de dezenas de milhões de ocorrências.

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Ao mesmo tempo em que isso se revela, não passa uma semana sem que a gente leia sobre um cara famoso ou poderoso que – tempos atrás, quando era "permitido" – avançou sobre o corpo de uma mulher adulta, indevidamente.

O tarado da vez é o direitista Boris Johnson, primeiro-ministro britânico. Ficamos sabendo, por estes dias que, durante um almoço, 20 anos atrás, ele aproveitou a cobertura oferecida pela mesa e enfiou a mão nas coxas de duas jovens jornalistas sentadas ao lado dele. Duas, de uma vez só.

O que um sujeito desses tem na cabeça? Ao mesmo tempo, o que tem na cabeça um adulto que abusa de crianças?

As duas coisas não são parecidas em forma ou gravidade, mas talvez guardem relação entre si.

O psicanalista Joel Birman, um dos intelectuais mais relevantes do Brasil, acredita que as crianças são os últimos corpos vulneráveis e indefesos da nossa sociedade, e por isso têm sido cada vez mais atacadas.

Já não se pode mais abusar tão facilmente de uma mulher adulta. O espaço social para isso encolheu. As agressões persistem, mas tornaram-se mais arriscadas para o agressor. As chances de que a mulher se defenda e ponha a boca no trombone, destruindo a vida do abusador, são grandes.

Perguntem a Johnson sobre isso.

Mas as crianças, por sua inevitável condição de dependência e fragilidade, ainda são corpos dóceis e submissos. Estão disponíveis aos caprichos, taras, perversões e crueldades dos adultos, de ambos os sexos.

Assim, com os corpos femininos cada vez mais interditados, estaria crescendo a ocorrência de crimes de pedofilia, como um rio de perversão que fosse desviado na direção das crianças. Antes, as vítimas preferenciais eram as mulheres. Agora a sombra parece estar se movendo na direção das crianças.

O que fazer?

Reprimir é necessário, mas não tem sido suficiente. Ninguém é mais odiado e perseguido do que os pedófilos, e, no entanto, a situação só piora. As autoridades e a sociedade parecem estar perdendo essa batalha em vários países.

Talvez seja hora de declarar o ódio e a condenação moral insuficientes e tentar entender melhor as causas subjetivas do problema.

Quando milhões de pessoas cometem o mesmo crime, em diferentes sociedades, talvez haja uma explicação social ou psicológica para esse comportamento repetido, e compreendê-la pode nos ajudar a impedir que mais crimes aconteçam.

O que Freud nos ensina é que as patologias sexuais são constituídas na infância, assim como a própria sexualidade.

Quem abusa de uma criança – ou de um adulto –  está encenando fantasias ou abusos de sua própria experiência infantil. O agressor sexual, desse ponto de vista, é uma criatura infantilizada, embora terrível.

(A quem estiver interessado numa leitura psicanalítica sobre esse tema, eu recomendo "O crime sexual", um texto do  francês Jean Laplanche publicado no livro "Sexual", da editora Dublinense).

Mas, de que adianta saber isso, alguém perguntaria. A resposta é simples: esse conhecimento sugere que os pedófilos que cometem crimes, assim como os agressores sexuais em geral, talvez precisem ser tratados, além de punidos.

É possível que a terapia reduza a reincidência, como acontece com as agressões de homens contra mulheres, no contexto da Lei Maria da Penha. Os agressores de mulheres que passam por grupos terapêuticos contra a violência doméstica reincidem menos do que os agressores que sofrem apenas a punição da lei.

Partindo do mesmo princípio, se pedófilos puderem entrar em contato com as motivações inconscientes que os levam a agir da forma como agem, existe a chance de que algo mude, e que aqueles que se permitiram abusar de crianças não voltem a fazê-lo.

Essa ideia não é minha, não é nova e sequer é original. Já foi apresentada antes e vem sendo discutida e testada em outros países. Circula por aí como uma fruta pronta a cair do pé, e isso é natural: quando um problema tão grave  parece não ter solução, as pessoas começam a buscar respostas fora da caixinha.

Não se trata, de qualquer forma, de abrir mão da lei, mas de pensar na possibilidade de medidas terapêuticas adicionais, que ajudem a evitar a repetição de abusos.

Antecipo que alguns leitores dirão que é melhor castrar ou matar os pedófilos do que prendê-los, e muito menos tratá-los.

A esses, eu lembraria que o Brasil é campeão mundial de encarceramento e violência contra criminosos ou suspeitos de crime, e isso não impediu que facções perigosíssimas prosperassem, que os assassinatos dentro e fora da lei se multiplicassem e que sejamos, nas últimas décadas, um dos países do mundo onde o risco de morrer por violência é mais elevado.

Se o mesmo padrão de ineficiência for aplicado no combate aos crimes de pedofilia, o Brasil corre o risco de se tornar um inferno para as crianças.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Ivan Martins é psicanalista, jornalista e autor dos livros “Alguém especial” e “Um amor depois do outro”. Irmão mais novo numa família de mulheres, aprendeu muito cedo a fazer xixi erguendo a tampa da privada, e acha que isso lhe fez bem. Escreve sobre relacionamentos desde 2009, tentando entender o que faz do apaixonamento algo tão central à vida humana.

Sobre o Blog

Esta coluna pretende ser um espaço para discutir os sentimentos, as ideias e as circunstâncias que moldam a vida dos casais – e dos aspirantes a casal - no Brasil do século XXI. Bem-vindas e bem-vindos!

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