Ivan Martins http://ivanmartins.blogosfera.uol.com.br Esta coluna pretende ser um espaço para discutir os sentimentos, as ideias e as circunstâncias que moldam a vida dos casais – e dos aspirantes a casal - no Brasil do século XXI. Bem-vindas e bem-vindos! Wed, 18 Sep 2019 03:01:15 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Mulheres fálicas (ou vúlvicas) — por que tantos homens têm medo delas? http://ivanmartins.blogosfera.uol.com.br/2019/09/18/mulheres-falicas-ou-vulvicas-por-que-tantos-homens-tem-medo-delas/ http://ivanmartins.blogosfera.uol.com.br/2019/09/18/mulheres-falicas-ou-vulvicas-por-que-tantos-homens-tem-medo-delas/#respond Wed, 18 Sep 2019 03:01:15 +0000 http://ivanmartins.blogosfera.uol.com.br/?p=79  

O quadro de Gustave Coubert, “A Origem da Vida”, no d’Orsay, em Paris (Reprodução)

No escritório em que trabalhava minha advogada, havia uma sócia que gostava de expressar fisicamente o seu poder. Ela se esparramava na cadeira de pernas muito abertas, durante as reuniões, no que parecia uma reprodução vestida do quadro “A origem da vida”, de Gustave Coubert. Era uma espécie de desafio aos homens e mulheres à sua volta.

“Ainda bem que ela usava calças, e não saias”, diz, escandalizada, a minha defensora, que vem de uma família de quatrocentonas educadas em francês e achava o comportamento da ex-chefe para lá de inadequado. “Não basta ser fálica, tem de ser vulgar”?

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Duas coisas me ocorreram enquanto ouvia essa história.

A primeira, óbvia, é que muita gente ainda se incomoda com mulheres de temperamento forte, sobretudo se elas fizerem questão de exibi-lo publicamente.

A segunda é que o adjetivo “fálica”, que se refere exclusivamente a mulheres, talvez pudesse ser trocado, sem prejuízo, por algo menos ligado à anatomia masculina.

Que tal mulheres vúlvicas?

Mulher fálica quer dizer, originalmente, uma mulher que “se acha completa”. Isso significa, em dialeto freudiano, que ela não sente a falta inconsciente de um pênis, e, consequentemente, não acha que vale menos do que os homens que o tem – nem anda desesperada atrás deles para que lhe deem um bebê, equivalente, na linguagem do inconsciente, a um pênis simbólico, um falo.

Mesmo que você não queira nada com Freud, e use “mulher fálica” como sinônimo de mulher forte e boa de briga – como todo mundo faz – o termo está carregado de conteúdo do século retrasado. Ele sugere que uma mulher com certos atributos de caráter é como um homem, uma criatura com pinto. Parece mais um insulto do que um cumprimento.

Vulva, ao contrário, é palavra eminentemente feminina. Já era usada no latim dos romanos e tem um significado poético: “porta do ventre”. Com uma sonoridade maravilhosa, descreve a parte externa dos órgãos genitais femininos – a elevação óssea, os pelos e os lábios vaginais. Chamar uma mulher de vúlvica reforçaria sua feminilidade e sua anatomia, em vez de masculinizá-la.

Em tempos de renovação de costumes de vocabulário, fica a sugestão.

Mas, qualquer que seja a palavra — vúlvica ou fálica — resta o fato de que esse tipo de mulher insubmissa ainda enfrenta resistências em nossa sociedade, sobretudo no trato íntimo com os homens.

Muitos caras ficam mais confortáveis ao lado de uma moça dócil, cujo temperamento não ameace o lugar social e os sentimentos deles.

Mulheres que mandam, questionam e disputam podem ser inquietantes. É fácil admirá-las de longe, mas, de perto, colocam um desafio emocional que certos homens, embora seguros em outros terrenos, simplesmente não encaram.

Ainda que o sujeito se ache feminista, na hora de escolher uma parceira é comum que se incline por personalidades menos conflitivas.

Mulher brava dá trabalho – é o que se diz, meio brincando, meio falando sério, na mesa do bar, da mesma forma que já ouvi mulheres dizendo que homem bonito dá trabalho.

Estamos no terreno da cultura conservadora e do preconceito, claro, mas estamos também no território do psiquismo inconsciente, aquilo que fazemos e sentimos antes mesmo de pensar. Escolher os nossos parceiros e parceiras cai nessa categoria.

Quase todo mundo detesta ser podado, corrigido ou criticado. Castrado, em gíria psicanalista. Ninguém gosta, mas, para os homens, parece ser particularmente intolerável se a castração vem de uma mulher.

Uma namorada que se comporte de maneira independente, que critique o sujeito e dispute seus pontos de vista, pode fazer muitos caras se sentirem pequenos frente aos outros homens e a si mesmos. Por isso eles saem correndo. Por machismo, mas não só.

As pessoas são frágeis, e os homens, por trás da máscara social da agressividade, podem ser ainda mais vulneráveis do que as mulheres. Verdadeiras crianças. A autoestima de muitos deles depende de um tipo particular de anabolizante afetivo – a admiração incondicional e a sensação de superioridade intelectual e moral em relação às parceiras. Diante de uma mulher que não sirva de escada para o ego deles, entram em pânico.

Imagino que muitas mulheres estão sujeitas a mecanismos sociais e psíquicos semelhantes, com sinal invertido, mas elas parecem ser mais flexíveis na hora de buscar companhia. Se todas quisessem apenas homens seguros, independentes e bem-sucedidos, estariam sozinhas. O que tem para hoje no mundo real não é bem isso.

Ainda bem que estamos (ou estávamos…) coletivamente engajados em processos de libertação pessoal e destruição de estereótipos, lutando para tornar o mundo um lugar mais amigável para todo tipo de personalidade, independente do gênero.

Os homens vão – lentamente — aprendendo a amar mulheres com mais personalidade do que eles, sem se sentirem Bentinhos inferiorizados diante de indomáveis Capitus, enquanto as mulheres vão tirando seus temperamentos dominantes do armário, em vez de escondê-los atrás de fachadas opressivas e antiquadas de mocinhas sorridentes.

A boa notícia é que todos podem ser escolhidos e amados, inclusive as mulheres vúlvicas e os homens frágeis. Como dizia aquela faixa imortal no carnaval do Rio de Janeiro, se organizar direitinho, todo mundo transa. Transa, acasala e reproduz, se for o caso.

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Sonhar com ex quer dizer o que sobre o seu relacionamento atual? http://ivanmartins.blogosfera.uol.com.br/2019/09/11/sonhar-com-ex-quer-dizer-o-que-sobre-o-seu-relacionamento-atual/ http://ivanmartins.blogosfera.uol.com.br/2019/09/11/sonhar-com-ex-quer-dizer-o-que-sobre-o-seu-relacionamento-atual/#respond Wed, 11 Sep 2019 03:01:14 +0000 http://ivanmartins.blogosfera.uol.com.br/?p=69

No quinto ano do seu relacionamento, ela começou a sonhar com o ex. De início era uma coisa meio velada, em que ele se fazia notar pela ausência: ela sonhava que estava em frente à casa onde haviam morado, ou encontrava, na rua, uma amiga dele de quem tivera ciúme. Ele mesmo não aparecia nos sonhos.

Depois, sua imagem começou a se insinuar, devagarinho. Ela sentia a presença dele numa sala, sem o ver. Ou ele aparecia numa foto que, sonhando, ela encontrava no fundo de uma gaveta.

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Finalmente, numa noite de sono tranquilo, ela sonhou que eles se sentavam debaixo de uma parreira e conversavam com aquela intimidade calma da qual (ela percebeu no sonho!) sentia alguma falta. Ao final da conversa, trocaram um selinho.

Ela contou esses sonhos perturbadores a um ou dois amigos, mas não ao marido. Se sentia traindo cada vez que sonhava com o ex, e acordava envergonhada. Achava que havia algo errado em experimentar, mesmo dormindo, a ternura (e o desejo…) que despontavam no sonho.

Teve medo que houvesse algo errado com seu casamento.

Faz algum tempo que eu ouvi de segunda mão essa história sem final. Nunca soube o que aconteceu com a vida e com o casamento da sonhadora, mas imagino que tenha acontecido nada – ao menos em consequência dos sonhos com o ex.

Sonhar com pessoas que tiveram importância emocional em nossa vida é previsível. Quase inevitável, eu diria.

Você pode decidir, racionalmente, que não quer ver ou saber da pessoa, mas seu inconsciente não tem nada a ver com isso. Para ele, o ex ou a ex continuam lá, intactos e preservados, como se o tempo não tivesse passado. Uma hora, ele ou ela aparece no meio da noite para dar um alô, provavelmente trazendo algo que era importante na relação de vocês, alguma coisa de que você tem saudade ou trauma.

O que há de errado nisso? Nada!

As pessoas que a gente amou deixam pedaços de si na nossa personalidade. Elas literalmente fazem parte do que somos. Às vezes, por ter sido muito traumática, essa presença subjetiva precisa de análise para ser digerida e armazenada de forma aceitável, para ser tranquilamente posta de lado.

O equívoco mais comum dos sonhadores envergonhados – como a moça que abre esta coluna – é imaginar que a imagem erótica ou terna que aparece no sonho corresponde ao ser humano de carne e osso.

Não!

Aquilo com que a gente sonha é um fantasma que ficou do outro, e que provavelmente nada tem a ver com a existência física ou psicológica da pessoa real.

(Eu, por exemplo, sonho com as pessoas como elas eram há 20 ou 30 anos, e com meus filhos, invariavelmente, como crianças, embora eles sejam adultos).

O que fica na gente depois de um relacionamento amoroso não é a pessoa do outro, mas aquilo que a gente escolheu reter dele ou dela – um traço de caráter, um momento especial, uma forma de agir ou de ser que, por qualquer razão, boa ou má, nos causou impressão profunda.

Onde está a traição em sonhar com algo assim inefável? Em lugar nenhum, claro. Não há motivo para se envergonhar.

Posto isso, talvez não seja legal acordar pela manhã e contar alegremente para o parceiro – ou para a parceira – que você teve um sonho erótico ou romântico com a pessoa anterior. Seria uma crueldade. Seres humanos ficam vulneráveis quando estão apaixonados, e uma informação dessas pode plantar minhocas na cabeça do outro, sobretudo se for pessoa insegura ou ciumenta. E quem não é um pouco de uma coisa e de outra?

Alguém poderia perguntar, com toda razão, se a insistência em sonhar com alguém do passado não mostra um amor que pede para ser reconhecido. Ou pelo menos uma crise na relação presente.

Vamos com calma:

Se o sonho deixa no ar um desejo, ou aponta a falta de alguma coisa representada na figura da pessoa anterior, isso não é sintoma de crise. Talvez seja aquilo que o neurologista Sidarta Ribeiro chama de oráculo da noite: o cérebro juntando material para nos dar pistas sobre as nossas necessidades submersas. Os sentimentos disparados pelo sonho podem servir de gatilho para uma conversa franca sobre a vida a dois. O ex, neste caso, é o mensageiro, não a mensagem.

Agora, o outro caso:

Se você acabou de se separar, ou separou faz alguns anos, e não se envolveu de verdade com mais ninguém, faz sentido pensar que os seus sonhos com o ex manifestam sentimentos que ainda estão lá, mais ancorados no passado que os naufrágios na costa de Fernando de Noronha. Mas, se for esse o caso, você nem precisa que um sonho lhe revele a situação, né? Você já sabe. É provável que o ex continue grudado em você como segunda pele, e vai levar tempo para livrar-se desse apego. Boa sorte!

Outra situação, totalmente distinta, é estar feliz numa relação, depois de ter deixado o passado para trás, e perceber sonhando, com alguma surpresa, que mantém conexões afetivas com a pessoa anterior. Ou mesmo com alguém mais distante no tempo.

No caso de um sonho assim, eu voltaria a dormir tranquilo.

Algo lhe teria sido dado durante a noite, na forma de prazer, nostalgia ou ternura, que nada tem a ver com o seu parceiro ou parceira atual, e que tampouco guarda relação com a pessoa real que apareceu no sonho – é coisa sua e dos seus fantasmas, e faz parte dos diálogos infindáveis que cada um de nós terá consigo mesmo pelo resto da vida, de diferentes maneiras.

Se eu tivesse de resumir a ópera em 10 palavras, diria: Os sonhos pertencem ao sonhador, não importa quem os habite.

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O fantasma da mudança: quer morar junto, mas não quer sair de sua casinha http://ivanmartins.blogosfera.uol.com.br/2019/09/04/o-fantasma-do-caminhao-de-mudanca-voce-teme-mais-mudar-de-casa-ou-de-par/ http://ivanmartins.blogosfera.uol.com.br/2019/09/04/o-fantasma-do-caminhao-de-mudanca-voce-teme-mais-mudar-de-casa-ou-de-par/#respond Wed, 04 Sep 2019 07:00:35 +0000 http://ivanmartins.blogosfera.uol.com.br/?p=59

(iStock)

Conheço gente que muda de casa como quem troca de roupa, sem pensar duas vezes.

Mas também conheço pessoas ridiculamente apegadas, para quem o lugar em que elas moram se converte, depois de poucas semanas ou meses, em parte integral da personalidade delas.

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Trocar de casa ou de apartamento, para gente assim, é como trocar de pele — uma tarefa emocionalmente impossível.

Conheci um sujeito que teve três casamentos na mesma casa. As mulheres entravam e saiam, mas a cor das paredes continuava a mesma, assim como os móveis, os objetos e os pôsteres dos anos 90.

Ele não admitia mexer em nada, nem era capaz de tentar viver o novo amor em outro lugar, onde ele e a parceira começassem do zero.

Suas relações afetivas eram uma espécie de repetição com destino antecipado. Os amores passavam, mas a casa permanecia, constante como um museu.

Acho que esse comportamento continha uma metáfora sobre o sujeito. Ele parecia preso em algum lugar do passado e tinha dificuldade em mudar de casa, de emprego, de planos, de vida. Era uma pessoa emocionalmente conservadora. Ou emocionalmente aprisionada, se quiserem.

O contrário disso são homens e mulheres que a todo momento parecem dispostos a recomeçar. Apaixonados e impulsivos, eles não precisam de muita reflexão para juntar as coisas e mudar de endereço ou de país.

Costumam ser destemidos também diante de outros desafios: tentar um emprego novo, aderir a um grupo de amigos diferentes, romper com alguma ideia, começar um novo projeto, pôr no mundo um outro ser humano.

Caminham decisivamente para frente, às vezes de forma muito rápida para quem está ao lado, e não costumam parar para enxugar as lágrimas ou olhar para trás. Gente assim não só muda de casa com facilidade como adora derrubar paredes e fazer reformas.

Acho, enfim, que a maneira como as pessoas se relacionam com as casas conta muito sobre a personalidade delas – e tem enorme impacto sobre a vida dos casais.

Se um é do tipo que anseia por mudança e novidades, e o outro gosta de permanecer e repetir, as negociações domésticas, em quase todos os assuntos, serão constantes e acaloradas, e eventualmente alguém terá de ceder.

Lembro de um casal de amigos que sofria horrores na hora de planejar as férias. Ele, um mineiro drummoniano, queria voltar sempre aos lugares que amava. Ela, inquieta, precisava conhecer novas paisagens. As discussões eram intermináveis, mas eles acabavam se entendendo – porque se queriam muito.

Na hora de alugar uma casa, as diferenças de personalidade invariavelmente explodem.

A parte conservadora do casal não vai gostar de nada que os corretores mostrarem, porque, no fundo, tem horror de caminhão de mudanças e de sair do seu canto. Por quê? Para quê? Está tudo tão bem.

A outra parte, que adora pôr a vida em caixas de papelão (e deixar a metade para trás), gostará de quase tudo que os corretores oferecerem, porque, intimamente, tem certeza que qualquer lugar pode ser transformado, e porque sente que uma das coisas mais prazerosas da vida é fazer essa transformação na companhia de quem se ama.

Se pensarmos bem, é quase um milagre que as pessoas consigam entrar em acordo sobre essas coisas. A cada humano corresponde uma ideia particular de casa e de felicidade doméstica, carregada com experiências e afetos da maior intensidade.

Como deixar de lado o modelo de casa que temos em nós para viver, por assim dizer, na casa do outro?

Acho que a resposta a isso é o sentimento universal que chamamos de amor.

Por mim mesmo, pensa o sujeito, ficaria onde estou pelo resto da vida, mas, para vê-la feliz, e para estar feliz ao lado dela, encaro a aventura.

Subo no caminhão de mudança como quem sobe no trampolim mais alto da piscina, e salto de lá apavorado e apaixonado: “Eu te aaaaaammoooooo…”. Tchibum!

Sem esse movimento – quer dizer, sem o sentimento amoroso que impulsiona a mudança – a vida seria uma chatice. Provavelmente ainda estaríamos onde começamos, na casa dos pais.

A gente precisa de apaixonamento para se mexer – apaixonamento pelas pessoas, pelas ideias, pelos desafios. Quando falta a paixão que nos liga ao mundo, a vida roda em falso, atola e estagna.

Li na semana passada um romance francês que ilustra dolorosamente a perda do desejo, e como ela tem relação com o ator de morar.

Serotonina, de Michel Houellebecq,

Um quarentão deprimido abandona sua casa e aluga um quartinho de hotel em Paris, onde passa os dias vendo TV. Como ele não sente mais conexão com o mundo, o espaço impessoal de um quarto de hotel lhe serve perfeitamente. Corresponde ao vazio de afetos que se tornou a vida dele. Parece apenas triste, mas o livro vai além.

Ele me fez lembrar como é importante ter um cantinho e preenchê-lo com os nossos amores e os nossos amigos, lembrando, a cada momento, que são os lugares que passam e as pessoas que ficam, e não o contrário.

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Cuidar é uma delícia: homens e mulheres deveriam saber (e fazer) isso http://ivanmartins.blogosfera.uol.com.br/2019/08/28/cuidar-e-uma-delicia-homens-e-mulheres-deviam-saber-e-fazer-isso/ http://ivanmartins.blogosfera.uol.com.br/2019/08/28/cuidar-e-uma-delicia-homens-e-mulheres-deviam-saber-e-fazer-isso/#respond Wed, 28 Aug 2019 07:00:05 +0000 http://ivanmartins.blogosfera.uol.com.br/?p=46 (iStock)

Li no fim de semana, mais perplexo do que divertido, a troca de farpas entre a advogada Rosângela Moro, mulher do ministro da Justiça, e a escritora Antônia Pellegrino, casada com o deputado Marcelo Freixo.

A primeira provocou as feministas no Instagram, dizendo que adorava fazer jantarzinhos e cuidar do marido. A segunda respondeu que sabia cuidar com a mesma paixão, e observou (corretamente, a meu ver) que a outra não entendia o que era feminismo.

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Isso fez com que eu me perguntasse se tinha algo a dizer sobre esse assunto, e a minha conclusão foi que tenho, pela simples razão de que acho cuidar uma delícia, e isso não tem nada a ver com ser homem ou ser mulher.

No mundo em que eu vivo, os homens fazem jantares românticos para as suas parceiras, e sentem-se orgulhosos por isso. Eles também lavam roupa, separam lixo, planejam viagens, limpam a pia, vão ao supermercado e cuidam dos filhos delas, que, muitas vezes (mas nem sempre) são filhos deles também.

Qualquer pessoa que atribua a capacidade de cuidar somente às mulheres estará vivendo no século passado, cercada de ideias empoeiradas e anacrônicas.

Uma das grandes conquistas masculinas das últimas décadas foi a possibilidade de expandir esse lado cuidador da personalidade. Não apenas trazer o dinheiro para casa no fim do mês, como provedor, mas abraçar a sensibilidade emocional, as lidas domésticas e o envolvimento com as crianças.

Existe um espectro de afetividade ligado à casa e à família do qual os homens foram privados por várias gerações, mas que agora estão recuperando.

É um evidente privilégio poder dedicar-se exclusivamente ao trabalho remunerado e à carreira, tendo alguém cobrindo a retaguarda prática e emocional, da roupa lavada ao bem-estar doméstico e escolar das crianças. Mas esse privilégio tem preço. Ele implica em perdas que serão sentidas lá na frente.

O sujeito que vive para o trabalho se aliena da casa e dos filhos. Ele frequentemente se distancia da mulher. Os laços com a família se enfraquecem e ele perde momentos que o fariam mais feliz.

Na verdade, qualquer pessoa que fique fora de casa 12 horas por dia e delegue as funções de cuidado e autocuidado a outros está levando uma existência empobrecida – seja homem ou mulher, pobre ou rico.

O que a vida nos oferece de melhor são as vivências emocionais ao redor das pessoas que a gente ama. Quem não consegue aproveitar isso está perdendo o melhor da festa.

(Uma das grandes injustiças da nossa sociedade é que um número cada vez maior de pessoas não pode estar com os amigos ou com as pessoas que amam. O mundo do trabalho virou um moedor de carne que exige dedicação integral, sobretudo dos que não têm nada. Homens e mulheres trabalham muito mais horas, para ganhar cada vez menos. Suas relações pessoais sofrem e as suas famílias implodem, por falta de cuidado e atenção. Há uma epidemia de sofrimento por trás das jornadas coletivas de 12 horas ou mais, mas, estranhamente, isso é considerado inevitável, como se nós, como sociedade, não tivéssemos o direito ou a possibilidade de decidir como a economia e o trabalho devem se organizar para proteger as pessoas e as famílias. Enfim, fica a dica).

Embora as mulheres ainda sejam as grandes cuidadoras do planeta – sobretudo quando se trata das crianças e dos idosos – os homens estão se apropriando lentamente dessas tarefas. Há uma mudança cultural em curso. Ela faz com que mais meninos cresçam sabendo que têm as mesmas obrigações das meninas, e que elas têm os mesmos direitos que eles. É uma conquista feminista formidável, que vai se impondo de forma irreversível.

Os caras começam a executar tarefas domésticas por obrigação, meio na marra, mas em algum momento descobrem que trabalhar em casa pode ser tão gratificante – ou tão chato – quanto trabalhar fora, por dinheiro. As duas coisas têm de ser feitas e não faz sentido que apenas uma parte do casal as faça, certo?

É uma espécie de aprendizado em que todos estão envolvidos: do prazer de ser cuidado ao prazer de cuidar. Ninguém adora lavar louça, ninguém fica exultante de ir ao supermercado no sábado, mas, quando se faz isso em dupla, ou por alguém que a gente ama, a coisa ganha outra dimensão.

Milhões de homens resistem, claro, porque é mais fácil ficar no sofá tomando uma cerveja do que dar banho nas crianças ou fazer arroz depois de um dia extenuante de trabalho. Alguns sentem que a sua virilidade será ameaçada se vestirem um avental e assumirem o fogão.

A má notícia para esses recalcitrantes é que o número de mulheres que aceita arcar sozinha com a função de cuidadora doméstica está encolhendo a olhos vistos. No mundo em que eu vivo, elas já são uma raridade antropológica. Daqui a pouco, os machos de sofá estarão falando sozinhos.

Minha primeira sogra, avó dos meus filhos, era uma educadora bem-sucedida, mas costumava dizer que, na casa dela, homem não entrava na cozinha. Ela me servia um uísque na sala, punha um tira-gosto sobre a mesa de centro e me sugeria esperar pelo almoço de domingo lendo o jornal. Mas Dona Célia era de 1928 e não está mais entre nós. Essa maneira de se relacionar com os homens está desaparecendo com a geração dela.

É mais comum entre as pessoas que eu conheço que os casais se cuidem mutuamente.

Todo mundo cozinha, todo mundo limpa, todo mundo rala para ganhar dinheiro. Todo mundo tem medo e chora, dentro e fora do cinema. Não existe mais trabalho de homem ou de mulher.

O que, sim, existe – e isso nos leva de volta à história que abriu esta coluna — é uma vontade muito suspeita de anunciar a própria felicidade nas redes sociais, agressivamente, às vezes como forma de atacar inimigos ou inimigas imaginárias. Acho isso um equívoco enorme. Quem é feliz não anuncia. Além de ser brega, dá um azar danado.

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Perde o marido, mas não perde a piada http://ivanmartins.blogosfera.uol.com.br/2019/08/21/perde-o-marido-mas-nao-perde-a-piada/ http://ivanmartins.blogosfera.uol.com.br/2019/08/21/perde-o-marido-mas-nao-perde-a-piada/#respond Wed, 21 Aug 2019 07:00:54 +0000 http://ivanmartins.blogosfera.uol.com.br/?p=37

(iStock)

Quando se trata das palavras, os homens podem ser criaturas sensíveis, mais até do que as mulheres.

Basta uma ironia da parceira fora de hora, uma crítica da namorada fora de lugar, e pronto: lá se foi uma noite de cinema, uma manhã divertida ou os planos sensuais para o fim de semana.

Homens não costumam chorar se a mulher for ríspida com eles, mas alguns ficam ressentidos por um tempo enorme, e isso pode virar um detrito que, lá na frente, somado a outros, faz tropeçar um relacionamento.

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Vocês já tiveram de lidar com isso?

Lembro de uma amiga contando, estupefata, que o namorado bateu a porta do carro e sumiu por vários dias, depois que ela apontou, meio brincando, os erros de português que ele cometia ao falar. Ela era revisora profissional e aquilo a incomodava mortalmente. O relacionamento não deu certo, claro.

Outra forma comum de chatear o parceiro é bombardear o entusiasmo dele com comentários sarcásticos, tipo: “Ah, agora que o chefe gostou do seu projeto ele virou um cara legal”?

De onde vem a suscetibilidade dos homens, eu só posso especular. Talvez dos egos infantis excessivamente protegidos pela família, que os acostumou a serem elogiados, não criticados. Ou talvez venha da cultura masculina brasileira, essa que se aprende no vestiário da escola, e que diz que homem não pode ser alvo de broncas ou piadas de mulher. Machismo puro e simples, portanto.

Qualquer que seja a origem dessa sensibilidade, ela tem consequências sobre a vida do casal.

Se não quiser melindrar seu bonitão susceptível, a mulher terá que vigiar a própria língua e manter os radares ligados para antever assuntos que possam chateá-lo.

Se, por independência de espírito, ela julgar que não deve fazer tais concessões (e tem todo direito de agir assim) precisa estar preparada para eventuais retaliações emocionais, em geral na forma de silêncio emburrado ou estudada indiferença. Nada muito maduro, mas é assim.

Existe, claro, a possibilidade de discutir civilizadamente aquilo que incomoda de parte a parte, sejam os comentários sarcásticos da mulher ou o comportamento do homem que provoca críticas, mas os casais, infelizmente, não conversam com a frequência que deveriam. Ou o sujeito se cala quando se sente atacado, acumulando ressentimentos, ou revida agressivamente, iniciando uma briga.

É muito comum que, ao reagir irritado a um comentário irônico da parceira, o cara escute a seguinte frase: “Puxa, era só brincadeira”. Claro que era, mas, no interior dos casais, como em qualquer grupo social, as brincadeiras têm a função de transmitir recados, que nem sempre são bem recebidos.

Tenho notado, olhando os casais ao meu redor, que, para algumas mulheres, refrear-se pode ser uma tarefa difícil. Elas perdem o marido, mas não perdem a piada, por assim dizer.

É da cultura feminina uma certa mordacidade que os homens, de um modo geral, não manejam. O que não quer dizer que não haja por aí legiões de homens perversos que abusam de suas companheiras e as humilham de todas as formas possíveis, inclusive verbalmente. Mas isso é matéria para uma outra coluna.

Nos últimos anos, desde que as mulheres se tornaram coletivamente conscientes da injustiça e da violência do machismo, deve ter ficado ainda mais difícil para elas se conter diante de falas ou atitudes que são percebidas como manifestações domésticas do patriarcalismo.

Mas esse desejo compreensível de apontar, criticar ou ridicularizar os excessos masculinos talvez devesse ser usado com moderação na vida conjugal.

Ninguém é perfeito. Ninguém está isento de contradições. Ninguém é correto (ou, como se diz, politicamente correto) o tempo inteiro, sobretudo dentro de casa.

Ter ao seu lado alguém que vive apontando erros e incoerências pode ser insuportável, qualquer que seja o sexo dos envolvidos.

Qual o custo de silenciar diante de um comentário bobo, deslumbrado ou contraditório do parceiro, abraçando com a ternura possível uma deficiência ocasional dele?

Alguém dirá que há nisso um grau enorme de condescendência, e que ela não deveria existir no interior dos casais.

Pois eu discordo.

Quem pode ser tolerante com o chefe arrivista, com o amigo bobo de escola, com a mãe chata ou irmão folgado, talvez possa ser um pouco mais paciente com a pessoa que acorda ao seu lado todos os dias, seja homem ou mulher. Ninguém precisa agir o tempo todo como juiz intransigente do caráter alheio.

Gostar, eu acho, requer generosidade de parte a parte. Homens e mulheres que desejam estar juntos precisam descer do pedestal e praticar ativamente a tolerância – ainda que dentro de limites.

Se o cara, ou a mulher, tem traços de caráter que lhe são intoleráveis, ou defende opiniões políticas ou sexuais ou culturais que você julga detestáveis, não dá. Ninguém é obrigado a tomar cicuta ideológica no café da manhã. Preconceito, burrice e violência não podem estar na mesa.

Mas, em geral, não é disso que se trata, né?

A gente cobra de quem está ao nosso lado, pessoas de quem a gente gosta muito, um grau de perfeição que jamais exigiria de estranhos. A gente se deixa irritar facilmente por quem é muito próximo. Qualquer desvio do padrão de perfeição e retitude que temos em mente causa reações desproporcionais. Nessas ocasiões, a gente reage com uma brutalidade que só a intimidade permite, embora não devesse.

Ninguém precisa ser fofo o tempo inteiro, mas seria melhor se homens e mulheres tentassem conter os aspectos mais ácidos da sua personalidade no convívio íntimo.

É bom lembrar que o amor do outro pela gente não o torna invulnerável às nossas grosserias, e que as relações de longo prazo demandam uma espécie de garantia: eu descubro as suas fronteiras invioláveis, e tento respeitá-las, e você, amorosamente, faz o mesmo comigo, ou melhor, faz o mesmo por mim.

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O sofrimento humaniza os homens, e até algumas mulheres http://ivanmartins.blogosfera.uol.com.br/2019/08/14/o-sofrimento-humaniza-os-homens-e-ate-algumas-mulheres/ http://ivanmartins.blogosfera.uol.com.br/2019/08/14/o-sofrimento-humaniza-os-homens-e-ate-algumas-mulheres/#respond Wed, 14 Aug 2019 07:00:28 +0000 http://ivanmartins.blogosfera.uol.com.br/?p=24

(iStock)

Está fora de moda dizer essas coisas, mas acredito que um certo grau de sofrimento humaniza as pessoas, sobretudo o sofrimento amoroso, sobretudo quando se trata de homens.

Tenho visto, comovido, mais de um amigo descer do pedestal do próprio pinto (perdoem a rudeza da linguagem) e perceber, pela primeira vez na vida – aos 30 anos, aos 40 anos, às vezes depois do 50 — que amar não é um churrasco de domingo, e que nem toda mulher está sob controle.

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Às vezes o sujeito se apaixona por alguém que o rejeita. Outras vezes, se percebe envolvido com uma parceira que mente, como ele tantas vezes mentiu, ou que discorda frontalmente dele, de uma forma que lhe parece intolerável. Mesmo assim, ele não é capaz de pôr um ponto final na situação e procurar uma relação mais confortável. Por estar envolvido, o cara escolhe ficar, aguentar e sofrer – e essa é uma experiência transformadora.

Freud dizia que o sofrimento humano parte de três fontes: o destino incontrolável e imprevisível, o corpo que envelhece ou adoece e as relações com outras pessoas, estas últimas sendo, para o inventor da psicanálise, a mais importante das três, de onde emergiriam as nossas experiências mais dolorosas.

O que sentimos pelos outros e aquilo que sentem por nós constitui a essência da vida. Mesmo se alguém renunciar ao mundo e se enfiar num buraco sozinho ainda estará em diálogo silencioso e permanente com as pessoas a quem amou, odiou ou temeu.

Não há isolamento verdadeiro para criaturas como nós, nascidas na balbúrdia das emoções humanas. Na mais absoluta solidão ainda estamos acompanhados por nossos anjos e demônios. Pela memória dos outros que nos habitam, quero dizer.

Isso tudo deveria ser óbvio, mas, sem uma dose elevada de sofrimento, sem uma quantidade dolorosa de privação emocional, muita gente não percebe a dependência afetiva que tem dos outros, e nem se dá conta da imensa fragilidade que ela provoca.

Muitos tentam atravessar a existência como se não precisassem de mais ninguém, ou melhor, como se os outros fossem descartáveis, peças bonitas de decoração existencial a serem substituídas quando enjoam ou causam problema. A fila anda, é o que se diz.

Para esses tipos, que eu chamaria de alienados afetivos, a decepção amorosa e o sofrimento que ela causa funcionam como uma espécie de revelação, uma epifania: de repente, não mais que de repente, eles percebem, apavorados, o buraco deixado pela ausência do outro. O pé na bunda age para eles como uma chave de compreensão do universo.

Sim, claro, mas o que haveria de bom nisso? Não seria melhor passar a vida sem ter a vivência terrível de olhar para os próximos 30 minutos (ou 30 anos) da vida e não encontrar neles um raio de luz ou uma gota de esperança? Jura que é preciso tocar o desamparo mais absoluto e o desespero mais assustador, causado pelo abandono, para se humanizar?

Em alguns casos, sim.

Muitas de nossas experiências emocionais universais – nascer, por exemplo, ou ser afastado da mãe, quando bebê – são apavorantes, verdadeiramente terríveis, e continuam vivas dentro de nós, soterradas no fundo da memória para evitar sofrimento.

A gente pode tentar viver até os 90 anos sem ter contato com esses sentimentos, mas seria como morar numa casa com três quartos e nunca abrir a porta de dois deles, apesar dos barulhos estranhos que saem lá de dentro.

Quando a gente vive a incerteza do amor, ou as dores do abandono, as portas dos quartos se abrem e somos levados, sem querer e sem saber, a visitar os velhos sentimentos escondidos. É como se repetíssemos as emoções antigas em outras circunstâncias, por meio de outras pessoas. Não é fácil e não é gostoso, mas agora somos adultos e estamos mais preparados.

A nova experiência nos permite, com alguma sorte, integrar os quartos fechados ao resto da casa e ganhar espaço no interior de nós mesmos. É possível que nos tornamos seres humanos mais tranquilos e mais inteiros.

Comecei falando de homens porque o machismo incentiva comportamentos afetivamente alienados. No interior da cultura masculina é fácil crescer achando que mulheres são objetos de uso e satisfação pessoal, não pessoas de verdade, com quem é bom e necessário se envolver.

Mas é evidente que há mulheres que agem da mesma forma, colecionadoras de corpos que não têm envolvimento real com ninguém. Os homens (ou mulheres) passam por suas vidas sem deixar marcas, até que, com sorte, alguém fica, cava um lugar e tem início uma relação capaz de invadir os porões emocionais.

Quando isso acontece, o outro finalmente ganha existência real. Ele deixa de estar fora – apenas mais um corpo no mundo – e se instala em nós como pessoa particular, como subjetividade. Essa interiorização apaixonada do outro transforma a vida psíquica e a existência. As alegrias ganham outra dimensão, assim como tristezas, ansiedades e as angústias. Com o outro vivo em nós, perdemos o controle da situação. A vida assume o volante, na sua imensa e bem-vinda imprevisibilidade.

Esse é o sofrimento que humaniza. Numa outra quarta-feira – prometo! – eu escrevo sobre a alegria e a felicidade que têm o mesmo efeito, e que doem menos.

 

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Conchinha ou cama diferente? Pior que dormir junto, só dormir separado http://ivanmartins.blogosfera.uol.com.br/2019/08/07/conchinha-ou-cama-diferente-pior-que-dormir-junto-so-dormir-separado/ http://ivanmartins.blogosfera.uol.com.br/2019/08/07/conchinha-ou-cama-diferente-pior-que-dormir-junto-so-dormir-separado/#respond Wed, 07 Aug 2019 07:00:33 +0000 http://ivanmartins.blogosfera.uol.com.br/?p=11

Dormir com alguém é um perrengue? Pode ser. Mas é muito bom também (iStock)

Imagine o que significa, para alguém que não gosta de bichos, acordar no meio da noite, pelada, sentindo as patas de um animal caminhando em suas costas. Aconteceu com uma amiga minha na primeira noite em que dormiu na casa de um cara que viria a ser seu namorado.

Ela despertou com um pulo e se viu numa cama estranha, encarando um gato de aparência inamistosa. Quase saiu correndo na direção do celular e do Uber, mas se conteve. Olhou de novo para o sujeito, que roncava feliz ao lado dela, e decidiu que valia o perrengue. Se acomodou no ombro dele e voltou a dormir, com gato e tudo.

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Com mais ou menos drama, acho que muita gente já passou por situações complicadas ao dividir a cama. Na primeira ou na centésima vez, é sempre um desafio partilhar o momento de dormir com outro ser humano, por um amontoado de razões.

Lembro de outra amiga, magrinha e miúda, que namorava um cara grandalhão. Ela não cansava de contar, meio aflita, meio excitada, como era difícil respirar quando o cara jogava “o braço enorme” sobre ela. Minha amiga tentava se esquivar dormindo na beira da cama, mas o sujeito, carente adormecido, a encurralava no meio da noite com seu abraço sufocante.

Durante a faculdade, por causa dessas dificuldades, eu adquiri o hábito excêntrico de dormir no chão, depois de transar. Achava impossível pegar no sono naquelas caminhas de solteiro mambembes, onde mal cabia um. Demorou para perceber que a minha atitude era sentida como rejeição pelas parceiras. Comecei então a ficar na conchinha, apertado e resignado, e com o tempo aprendi a gostar.

Hoje, em cama mais ampla, me parece que a única coisa pior do que dormir junto é dormir separado.

Do ponto de vista da necessidade de descanso, veja bem, não tenho dúvida de que estar sozinho funciona melhor. A gente escolhe a hora de apagar a luz, se posiciona da forma que quiser na cama, se mexe à vontade e não corre o risco (na verdade, a certeza) de ser acordado por um toque, um movimento ou um barulho feito pelo outro. Descansa mais e melhor.

O sono, na vida dos casais, está sujeito a acomodações e negociações, como todo o resto. Seria legal assistir na cama a mais um episódio daquela série viciante, mas ela tem de acordar às seis da manhã, já apagou a luz e está ostensivamente de olhos fechados, esperando você desligar o abajur e se aquietar. Vai encarar?

Se o seu o namorado bebeu demais e está roncando alto,  se a sua mulher está com insônia e não para de se mexer, se aconteceu entre vocês uma daquelas brigas, talvez seja inevitável alguém ocupar o sofá da sala ou a cama do quarto de hóspedes, mas eu considero esses movimentos uma espécie de último recurso.

Para além das questões de conforto e bem-estar, existe uma cumplicidade em dormir junto que talvez deva ser mantida, mesmo com algum sacrifício. As últimas palavras que se troca de noite, o primeiro olhar pela manhã, essas são coisas que ancoram a relação subjetivamente, e estabelecem uma parceria rotineira e tranquilizadora. Dormir na mesma hora, depois de conversar um pouco, é como jantar ou tomar café da manhã a dois. Não parece essencial, mas, se você consegue fazer todos os dias, a vida fica mais gostosa, e anda melhor.

Não se deve esquecer que a noite costuma evocar nossos temores mais profundos, e contra eles a natureza humana não oferece proteção maior do que o contato quente de outra pele, e uma respiração tranquila e familiar. Quem está ali, naquela posição e naquela situação, vai se tornando essencial.

A gente cresce vendo os pais dormirem juntos — às vezes conosco no meio — e tenho a impressão de que um pedaço importante da nossa personalidade anseia, de forma consciente ou não, por ocupar esse lugar adulto na cama, um espaço ao mesmo tempo de erotismo e de poder.

Alguém dirá: o cara não está falando de sexo, só de dormir! Alto lá, estou falando de sexo, sim. Tocar os pés do outro com seus pés, ou mexer nos cabelos dela antes de dormir, são gestos de amor (e de desejo) que sinalizam que há vida sob os lençóis. Transar, como diria aquele técnico de futebol sobre o gol, é consequência da harmonia e da intimidade do casal. Não adianta querer fazer sexo com uma mulher com quem você não conversa, que não ri com você, que não chora no seu ombro quando está morta de medo do que acabou de ler no celular.

Se você está na cama quando ela sai cheirosa do banho e vai se desenrolando da toalha para pôr o pijama, as chances de uma transa gostosa são maiores. Bem maiores. Vale o mesmo para a mulher que espera o marido se deitar lendo um livro. Acho que estar ali, naquele momento do fim do dia, emocionalmente disponível, estimula a vida sexual de todo mundo: duas mulheres, dois homens, qualquer combinação. O que cria a possibilidade do desejo é a intimidade.

Quando eu era criança, a gente assistia na TV a séries e filmes americanos em que os casais dormiam em camas separadas, no mesmo quarto. Não sei se isso acabou na sociedade americana ou se nunca existiu, se era apenas uma invenção moralista de Hollywood. De qualquer forma, não se vê mais aquelas caminhas de solteiro lado a lado. Os gringos descobriram a cama de casal.

Aqui, no Brasil de 2019, ouço falar de gente que prefere quartos separados, ou casas separadas, para dormir em paz. Suponho que vão para cama juntos para transar. Eu compreendo, mas acho um empobrecimento. Em nome do conforto se deixa de lado algo essencial.

Parte importante da vida afetiva pressupõe ceder espaço ao outro e se deixar incomodar por ele, pela presença dele, pelas questões dele. Se a gente não consegue abrir dentro de nós esse espaço para receber e conviver, vamos precisar de camas e casas cada vez maiores.

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Blog do Ivan Martins estreia no UOL http://ivanmartins.blogosfera.uol.com.br/2019/07/25/blog-do-ivan-martins-estreia-no-uol/ http://ivanmartins.blogosfera.uol.com.br/2019/07/25/blog-do-ivan-martins-estreia-no-uol/#respond Thu, 25 Jul 2019 19:25:18 +0000 http://ivanmartins.blogosfera.uol.com.br/?p=6 Esta coluna pretende ser um espaço para discutir os sentimentos, as ideias e as circunstâncias que moldam a vida dos casais – e dos aspirantes a casal – no Brasil do século XXI. Bem-vindas e bem-vindos!

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