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Os parceiros que vivem em nós: como o amor molda nossa personalidade

Ivan Martins

23/10/2019 00h01

A gente acaba aprendendo um temperinho com o outro… (Imagem: iStock)

Sigmund Freud escreveu que as mulheres carregam em si, como parte de sua personalidade, as marcas das personalidades de seus amantes.

O inventor da psicanálise, homem do século XIX, não percebeu que a sua intuição genial se aplicava também aos homens: eles são igualmente transformados pelo caráter das mulheres que amam.

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Levam para a vida, como coisa própria, ideias, hábitos e sentimentos adquiridos na permeabilidade do convívio amoroso.

Anos depois, no meio de uma risada ou de um gesto, às vezes na intimidade do sexo, o sujeito percebe, surpreso, uma espécie de implante – algo claramente da Fulana, embora perfeitamente integrado ao seu jeito de ser e ver o mundo.

Eu já notei isso em mim, e acho bonito.

Além da herança emocional dos pais e dos irmãos, que trazemos em nós como segunda natureza, é comovente perceber que temos enraizada a subjetividade das pessoas com quem escolhemos dividir o tempo, o espaço e o corpo.

É bom saber que, também do ponto de vista da nossa construção pessoal, um romance tem consequências.

Se você passar 10 anos – ou 10 meses – idolatrando uma personalidade tóxica, vai gastar um tempo equivalente para identificar e extrair as manchas invisíveis desse relacionamento. Ninguém sai limpo de um mergulho no Tietê.

Ainda bem que essa não é a experiência da maioria, ao menos na maior parte do tempo.

Apesar de desencontros e rupturas, os apaixonamentos costumam ser vivências benignas, em que nos deixamos afetar, gostosa e duradouramente, pelo toque afetivo e intelectual do outro.

No fim de semana passado, escolhendo músicas para mandar a uma amiga estrangeira, me dei conta de quanto meu gosto musical foi influenciado por pessoas que passaram pela minha vida.

Acho que vale o mesmo para a literatura, as artes, o cinema e a política. Até o jeito de vestir, de dirigir e fritar bifes tem contribuição afetiva dos outros.

É disso que estou falando, entendem?

Aquilo que a gente percebe como a nossa personalidade, nosso eu, é a soma de milhões de fragmentos externos, cascalhos existenciais deixados por quem esteve perto de nós.

Eles começam a ser colecionados na infância mais remota e vão ficando, como sedimentos impregnados de emoção.

Aos poucos, se tornam parte de nós, ou melhor, nós somos a consequência dessas contribuições e acréscimos sentimentais.

As pessoas a quem amamos e de quem nos tornamos amantes – como percebeu Freud – estão em posição privilegiada para nos influenciar.

Elas têm acesso desprotegido aos nossos sentimentos e fazem parte de momentos inesquecíveis. Contribuem, como protagonistas, para a nossa contínua educação sentimental.

Às vezes me parece que um dos critérios para não se deixar fossilizar ao longo da vida é estar aberto – afetivamente aberto – à influência amorosa que vem dos outros.

Muita gente encontra-se fechada em si mesma como ostra, protegida por uma grossa carapaça de hábitos, certezas e predileções.

Se acham velhos demais, ou espertos demais para se deixar modificar pelos outros.  Na verdade, são incapazes de gostar e se deixar mudar, como o amor exige.

A capacidade de mudança e adaptação ao outro é um dos aspectos essenciais da entrega amorosa, sem a qual ninguém pode, verdadeiramente, tornar-se parte da vida de alguém, ou permitir que o outro se integre à sua vida.

Uma das formas mais cruéis de solidão é a das pessoas que – apavoradas pela ideia de mudança ou apaixonadas demais por si mesmas – exigem que os parceiros se moldem inteiramente a elas, num movimento de mão única que, visto de longe, se assemelha a uma relação amorosa, mas, de perto, se revela como sequestro, aquisição ou rendição.

Deus me livre do intercâmbio sem troca, da repetição sem transformação.

Gosto de pensar que há pedaços meus nas pessoas que foram próximas de mim, e que há coisas delas na minha personalidade.

Esse é um motivo enorme para aproximar-se romanticamente apenas de pessoas boas, de gente do bem.

Se você vai contrair alguma coisa por amor, se vai tornar-se diferente em contato com o outro, que o resultado seja virtuoso, algo que se possa mostrar com orgulho e carinho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Ivan Martins é psicanalista, jornalista e autor dos livros “Alguém especial” e “Um amor depois do outro”. Irmão mais novo numa família de mulheres, aprendeu muito cedo a fazer xixi erguendo a tampa da privada, e acha que isso lhe fez bem. Escreve sobre relacionamentos desde 2009, tentando entender o que faz do apaixonamento algo tão central à vida humana.

Sobre o Blog

Esta coluna pretende ser um espaço para discutir os sentimentos, as ideias e as circunstâncias que moldam a vida dos casais – e dos aspirantes a casal - no Brasil do século XXI. Bem-vindas e bem-vindos!

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